quarta-feira, 18 de maio de 2016

CURSO: CLÍNICA PSICANALÍTICA - ANO V

SEXUALIDADE E MODALIDADES DE GOZO


Não é óbvio o que seja o sexo. Tampouco o que seja a sexualidade. A Psicanálise construiu o seu conceito de Inconsciente levando em conta o fato de que o psiquismo humano tenta a todo instante obter prazer através do corpo ainda que esse prazer tenha que aprender a dar lugar ao princípio de realidade e, por isso, seja perseguido, proibido, rechaçado, escondido e transformado. 

O inconsciente é um troçador. Ele goza fazendo brincadeiras e armadilhas, confundindo, no final das contas o que é ser e não ser, mulher e homem. A Psicanálise foi talvez, na era moderna, o primeiro discurso/prática à respeito da sexualidade que se quis não normativa e não patologizante. Ainda assim, a mesma Psicanálise tropeça em si própria e, por diversas vezes, tornou-se ela também objeto de sedação e manipulação acerca da diferença sexual. Nada difícil de explicar: qual discurso que, ao instituir-se não cede às forças do recalque? 

Toda forma de tesão é real. Todo sintoma é uma forma de tesão. Logo, todo sintoma é uma inscrição do real que, por essa via, engendra uma certa realidade. 

As realidades são negociáveis? Sim, sobretudo se o sexo é passível se ser atravessado pela palavra. As modalidades de gozo são arraigadas e fundam idiossincrasias mas nada impede de que bailem e se desfaçam para se recomporem alhures. Trabalho de vida. Trabalho de Psicanalista.

O psicanalista – estranho imbuído de um certo desejo de cura - a ele, cabe respeitar a dimensão de indecidibilidade própria do inconsciente. O espaço analítico é uma reserva onde se poderá fermentar o vinho da libido de maneira tal que se torne não só palatável, mas, com sorte, também, delicioso. A metáfora e a metonímia oscilam na frequência do inconsciente que não faz outra coisa senão tentar se repetir. Por isso repetimos os erros, os hábitos e as mesmas tolices. Isso até que, em um piscar de olhos ou , diferentemente, com árduo trabalho psíquico, consegue-se realocar a libido de maneira tal que o sofrimento ou a burrice do sintoma deem lugar ao gáudio afirmativo do corpo. Um corpo deliberadamente corporal, corporizador, corporante. 

Sabe-se pouco sobre o sexo mas deseja-se demais em torno disto. As formas do Inconsciente são também as formas sexuais e aí, fantasias e posturas - histéricas e/ou perversas - são elementos que, uma vez em análise, possibilitam ao analisando melhor cadenciar sua prática. Prática sexual. Prática de vida.

Neste curso, a técnica do psicanalisar será revista e repassada através de inúmeros exemplos e situações da vida cotidiana. Autores como Freud, Ferenczi, Melanie Klein, Winnicott e Lacan serão citados e ex-citados  quando conveniente. Isso, diga-se de passagem, convém  o tempo todo!

Toda aula será a apresentação de um pensamento clínico - sob a direção do Psicanalista Carlos Mario Alvarez -  a ser trabalhado técnica e teoricamente. Na sequência, toda aula contará também com a supervisão coletiva da apresentação de um caso clínico realizada por parte de um dos participantes previamente inscrito e autorizado. No final das contas, o curso visa problematizar o que é a Psicanálise e como exercê-la.

Carlos Mario Alvarez, Psicanalista, Professor Convidado Universidade Sorbonne-Paris 2, Membro Fundador da Formação Freudiana, Doutor Puc-Rio.

Formação Freudiana - RJ ( Downtown, Barra da Tijuca)
Segundas-Feiras, das 20:30 às 22h
Inscrições:
(21)3149-3375

quarta-feira, 11 de maio de 2016

GOZA-SE COMO É POSSÍVEL:



6 Idéias psicanalíticas sobre sexualidade

• A crença de que homem e mulher se completam, que foram feitos um para o outro e que constituem a verdadeira forma natural de amor mostra-se uma frágil e insustentável compreensão sobre a sexualidade humana. 

• O Inconsciente não descrimina os gêneros sexuais. Não é porque alguém é do gênero masculino, portador de um pênis, que deverá desejar uma mulher ou sentir-se identificado ao lugar do macho. Em princípio, a certeza que advém da genitália é que ela é potencial fonte de prazer. Ou seja, o corpo é prazeroso!

• As denominações de heterossexualidade, homossexualidade ou bissexualidade são formações aprisionantes do que seja a sexualidade. Uma pessoa, a rigor, é capaz de desejar de diferentes formas, diferentes objetos em diferentes momentos com diferentes intensidades. O que decide sobre isso, para a Psicanálise, é a forma como o recalque marca cada singularidade. Portanto, homens e mulheres são sexuais.

• O fetichismo é a prova de que homem e mulher são capazes de atrelar seus desejos aos mais variáveis objetos. Por exemplo, um homem pode amar na mulher o contorno de seus pés mais do que sua feminilidade ou “personalidade”. Ou, uma mulher pode amar em um homem sua forma maternal de agir de maneira tal que se casou com o duplo de uma “mãe”.

• O desejo, no sentido psicanalítico, é impossível de ser ver realizado em sua totalidade. Por mais que se atinjam objetivos, realizem-se fantasias ou concretizem-se atos, haverá sempre uma sobra que retornará como desejo insatisfeito. Deseja-se sempre mais. O desejo é desejo de desejo (Lacan).

• Gozar, no sentido psicanalítico, significa estabelecer uma forma muito particular de se fixar a um tipo de obtenção de satisfação de maneira tal que ela se repita à revelia da compreensão, vontade ou escolha consciente da pessoa. Uma posição de gozo pode implicar prazer e/ou desprazer. O fato é que o ser humano é prisioneiro de seu gozo e isto acaba por determinar sua forma de agir e estar no mundo. Dela ele pode acabar refém. Um cônjuge, por exemplo, que vive a reclamar de seu parceiro e assumidamente leva uma vida de privações e frustrações goza exatamente em viver reclamando, em fantasiar com a “liberdade” ou mesmo vinganças. Goza, desfruta, usufrui, de uma dimensão que soa estranha por sinalizar infelicidade. Mas... esse é um dos paradoxos da sexualidade humana.
Deseja-se o inatingível e goza-se como é possível.


Por Carlos Mario Alvarez, Psicanalista.

terça-feira, 3 de maio de 2016

Fim de Análise, Renúncia ao Fantasiar Patológico Cap.4, Parte I

Em 1927, portanto logo após o período reflexivo-crítico à técnica ativa, Ferenczi escreve um artigo interessado em problematizar a questão da finitude dos processos analíticos. “ O Problema do Fim da Análise”1 constitui-se num cuidadoso texto dedicado a pensar determinadas vicissitudes ao longo de uma experiência de análise que seria indicativos de que tal experiência se aproximaria do fim. Lembramos que a questão do término da análise já havia se estabelecido como uma das preocupações fundamentais em Ferenczi desde a postulação de sua técnica ativa. Ali, vimos o quanto ele não se cansou em dizer que o emprego da atividade estava relacionado exclusivamente a situações de análise que se mostrassem próximas de um fim.
Os problemas situados em torna da situação de término das análises sempre ocuparam os analistas. Desde as preocupações iniciais dos primeiros analistas, incluindo Freud, até elaborações sofisticadas nascidas em berços contemporâneos, o problema do fim da análise sempre esteve em voga suscitando os mais diversos interesses e trazendo sempre a reboque questões ligadas ao próprio limite da experiência analítica.

Em Ferenczi a coisa não se passa de forma diferente. Podemos afirmar que sua preocupação em tematizar o fina da análise é realizada, em grande parte, para se pensar o que se pode esperar de uma experiência de análise.
Da mesma forma, espera-se pode saber situar de uma maneira mais clara o que pode esperar do analista enquanto um elemento que deve conduzir a análise até um desenlace favorável. Bem entendido, o que afirmamos é que para Ferenczi trata-se menos de se construir uma teoria acerca do fim da análise do que de se problematizar o próprio propósito de uma análise. Dessa forma, é pensando sobre seu fim, sobre seus limites, que Ferenczi pode iniciar uma importante parte de sua prática onde ele pôde, dentre outras coisas, pensar uma certa metapsicologia do lugar do analista. Esta última, nós acreditamos, será o instrumento através do qual Ferenczi se servirá para desenvolver seu pensamento em torno do manejo da própria transferência nos período final de suas formulações teórico-clínicas.

Em “O Problema do Fim de Análise”, ao comentar um caso clínico, Ferenczi nos coloca diante de uma questão que lhe parece representar uma espécie de dificuldade capaz de desafiar o analista na tentativa de cura.
Trata-se de problematizar um caso onde o que predominava enquanto material de análise eram justamente informações mentirosas do paciente acerca de si mesmo. Ferenczi se vê diante de um paciente que, por própria estrutura de caráter, é levado a mentir desenfreadamente ao analista. A indagação de Ferenczi vai na seguinte direção: como conduzir um processo de análise quando o sujeito não respeita a regra fundamental da psicanálise utilizando-se de um discurso forjado? Como dar crédito ao que é dito se esse dito tem sempre o estatuto de ser uma mentira?

Deixando de lado a particularidade do caso em si, afirmamos que o que interessa a Ferenczi é pensar acerca da incidência da mentira no processo de análise. Como entender os relatos que não se manifestam fiéis aos acontecimentos reais? Qual o valor da mentira na economia de um tratamento? Ao levantar essas questões Ferenczi é levado a fazer uma importante afirmação que não deixará de nos levar a certas articulações.

Trata-se, pois de afirmar que o fim de análise deve estar próximo quando o sujeito for capaz de abandonar sua tendência para mentir. Tal afirmação ganha maior importância quando entendermos que para Ferenczi a mentira em questão está intimamente ligada ao processo de fantasiar. Para melhor entender o estatuto da mentira em análise, Ferenczi é levado a aproximá-lo da fantasia. Assim, a fantasia em questão é algo de “patológico”, e se encontra presente, principalmente no universo infantil. “Aquilo a que, segundo os princípios da moral e da realidade, chamamos mentira, na criança e na patologia tem o nome de fantasia”2 Assim Ferenczi em seguida é levado a concluir que a tarefa principal numa análise de histeria é exatamente esmiuçar e explorar a estrutura fantasística inconsciente.

Ferenczi vai além. Para ele não basta que se analisem as fantasias e que estas ganhem significações na consciência. Não, é preciso que o sujeito seja levado a um ponto em que seja capaz de reiniciar a seu universo ilusório (mundo fantasístico) e possa enfrentar e elaborar a realidade de maneira efetiva. Vejamos como se pronuncia Ferenczi a esse respeito: “Adquiri a convicção de que nenhum caso de histeria pode ser considerado definitivamente solucionado enquanto a reconstrução, no sentido de uma separação rigorosa do real e da pura fantasia, não estiver consumada”. 3

Nesse ponto é preciso que levantemos certas questões para melhor entendermos o alcance da proposição ferencziana que diz ser a capacidade de renuncias à fantasia o caminho da cura analítica. Para tal, faremos um breve percurso na obra freudiana a fim de pensarmos as relações existente entre fantasia, mentira e realidade.
No Texto “Escritores Criativos e Devaneios”4 Freud é levado a estabelecer uma relação entre o “brincar infantil” e o “fantasias”. Ele afirma que a criança ao brincar, elege certos objetos e realiza certas conexões onde sua atividade mostra-se perfeitamente distinta da realidade e no entanto investida dessa mesma realidade. Para Freud, o que distingue o brincar infantil do fantasiar adulto é justamente o fato da criança reconhecer em seu ato, algo que imita a realidade, mas que não se pode confundir nem se substituir por ela. O brincar infantil é transitório e a criança que brinca de médico, por exemplo, não acredita de fato que seja um profissional. A questão toda é que esse brincar se mostra adaptado à realidade pois ele não impedirá que, no futuro, a criança que brinca possa vir a escolhe um ofício. 

Diferentemente, o fantasiar parece merecer um outro estatuto. A fantasia em uma realidade própria, realidade psíquica segundo o próprio Freud, que, entendia desde uma determinada perspectiva, impede que o sujeito realize certos atos. O mundo fantasístico adulto parece ser um mundo que não permite a assunção de uma posição madura. Segundo Freud, o adulto que fantasia patologicamente se vê prisioneiro de suas próprias fantasias e inapto para uma relação sadia com o mundo exterior. Vejamos o que ele diz sobre o adulto e o fantasiar: “Sabe-se que dele se espera que não continue a brincar ou a fantasiar, mas que atue no mundo real, por outro lado, alguns dos desejos que provocaram suas fantasias são de tal gênero que é essencial ocultá-las. Assim, o adulto envergonha-se de suas fantasias por serem infantis e proibidas”.5


Para Freud o sujeito que fantasia patologicamente assim o faz porque teve que se esquivar às provações da vida real. O recurso doentia à fantasia faz com que a realidade se adeque de maneira que o sujeito possa ter algum ganho de prazer mesmo que se torne um neurótico. Ainda para Freud, fantasiar e ser feliz de fato são coisas que excluem. Toda fantasia representa uma insatisfação da vida pulsional que não pôde ser obtida através dos recursos naturais: “Podemos partir da tese de que a pessoa feliz nunca fantasia, somente a insatisfeita. As forças motivadoras das fantasias são os desejos insatisfeitos, e toda fantasia é a realização de um desejo, uma correção da realidade insatisfatória”.6

O exagero da vida fantasística, a impossibilidade de um cotejamento mais eficaz do desejo do sujeito com a realidade podem fazer do fantasiar uma experiência trágica. Quanto mais a fantasia se torna soberana e isolada do real, mais o sujeito se torna alienado de uma concepção de si mais satisfatória. Tal fato fica bastante claro a partir da seguinte afirmação freudiana: “Quando as fantasias se tornam exageradamente profusas e poderosas, estão assentes as condições para o desencadeamento da neurose ou da psicose. As fantasias também são precursoras mentais imediatas dos penosos sintomas que afligem nossos pacientes, abrindo-se aqui um amplo desvio que conduz à patologia”.7

É preciso marcar que essa visão “pessimista” acerca da fantasia está longe de ser a única maneira de se ler o estatuto da fantasia na obra de Freud. Sabemos que Freud, cedo, substituiu toda a sua concepção a cerca do fator traumático como causador da neurose para instituir o universo da fantasia que passava a ser a maneira pela o qual o neurótico organizava sua realidade. Desde então, como já tivemos ocasião de dizer, a fantasia teve o estatuto de ser uma realidade psíquica.

Se Freud e Ferenczi falam de uma negatividade da fantasia é menos para destituí-la de importância psíquica do que para estabelecer uma certa possibilidade de patologia quando da soberania da fantasia junto à realidade. 
Em “Fantasias Histéricas e sua Relação com a Bissexualidade” 8 Freud volta a afirmar que as fantasias são muitas vezes inconscientes e que passaram pelo processo do recalque. “As fantasias inconscientes podem ter sido sempre inconsciente e formadas no inconsciente, ou, o que acontece com maior frequência, foram inicialmente fantasias conscientes, devaneios, desde então deliberadamente esquecidas, tornando-se inconscientes através do recalque”.9

Assim, geralmente, as fantasias inconscientes são representantes de experiências de satisfações infantis (auto-eróticas) que se fizeram inscrever como tal para perpetuar uma espécie de prazer primitivo. O sujeito, em não encontrando uma satisfação libidinal no plano real, ou mesmo não estando apto para uma atividade sublimatória da sexualidade, cairia nas redes das fantasias inconsciente que tomaria para si toda a capacidade sexual de investimento do sujeito. “Dessa forma as fantasias inconscientes são os precursores psíquicos imediatos de toda uma sério de sintomas histéricos.”10

Nessa perspectiva, também para Freud, a tarefa analítica passaria por uma destituição da fantasia. Ao analista caberia permitir o advento de associações carregadas de fantasias inconscientes para, em seguida, transformá-las em material consciente de forma a extingui-las. A análise seria uma tentativa de devolver ao neurótico uma parcela da realidade com a qual ele foi inábil para mediatizar. “Quem estudar a histeria, portanto, logo transferirá seu interesse dos sintomas para as fantasias que lhes deram origem. A técnica da psicanálise nos permite em primeiro lugar inferir dos sintomas o que essas fantasias inconscientes  são, e então torná-las conscientes para o paciente”.11

Em “Formulações Sobre os Dois Princípios do Funcionamento Mental”12, ao pensar a relação entre principio do prazer e principio de realidade, Freud volta a tona com a questão da fantasia e seu estatuto junto à realidade. De início Freud é enfático ao lembrar que todo neurótico assim o é porque alienou-se da realidade. “Os neuróticos afastam-se da realidade por achá-la insuportável – seja no todo ou em parte”.13 Nessa perspectiva, se por um lado a fantasia é a expressão maior do mundo interior, universo organizado das representações inconscientes do sujeito, reinando exclusivamente sob as leis do principio do prazer, a imposição do principio de realidade, por outro lado, apresenta-se como uma injunção que incide diretamente do real (mundo exterior) obrigando que a fantasia dê lugar à dimensão palpável da realidade.
Aqui, o modelo da arte é tomado por Freud como um indicador da possível e sadia relação estabelecida entre a realidade e o imaginário, entre a mentira fantasística e a verdade imposta pelos fatos advindos do exterior.

“ A arte ocasiona uma reconciliação entre os dois princípios de maneira peculiar. Um artista é originalmente um homem que se afasta da realidade, porque não pode concordar com a renúncia à satisfação pulsional que ela à principio exige e que concede a seus desejos eróticos e ambiciosos completa liberdade na vida de fantasia. Todavia, encontra o caminho de volta deste mundo de fantasia para realidade, fazendo uso de dons especiais que transformam suas fantasias em verdade de um novo tipo, que são valorizados pelos homens como reflexos preciosos da realidade”.14

Nada mais próximo do pensamento de Ferenczi – quando de sua afirmação de que o sujeito deve ser levado a abandonar sua capacidade de mentir para que uma análise seja concluída – do que a metáfora freudiana da arte que ilustra a bem sucedida conciliação entre fantasia e realidade.
Quando Ferenczi afirma que o sujeito em análise deve ser levado a renunciar à sua vida fantasística inconsciente patológica isso deve ser entendido não com uma proposta de abandona à capacidade de fantasiar mas sim como tentativa de levá-lo a enfrentar as exigências advindas do mundo externo de maneira que ele encontre saídas bem sucedidas tal como o artista o faz em seu processo criativo. Essa postulação de Ferenczi acerca da mentira e da fantasia deve ser entendida com todo precisão. Na verdade Ferenczi está interessado em ressaltar uma certa incidência da fantasia que se mostra alienante para o sujeito. Oram não se trata de imaginar que o sujeito não vá mais fantasiar. Isso seria da ordem do impensável, pois vimos o próprio Ferenczi que o psiquismo é uma espécie de “máquina” introjetiva onde a fabricação de sentido apresenta-se como sua atividade mais complexa. Nessa perspectiva, sabemos o quanto a fantasia é  ela própria material importante a ser viabilizado pela introjeção.

Assim, ao propor que o sujeito abandone sua proposição mentirosa, Ferenczi para se preocupar mais uma vez em restabelecer o fluxo das associações livres. Nesse perspectiva, para que o sujeito possa associar livremente ele tem que ter sido capaz de renunciar a seus prazeres infantis que encontravam na mentira todo um campo satisfatório de representação.
Ferenczi chega a formular a interessante ideia de que a regra fundamental só conseguirá ser cumprida à risca quando de um término de análise. Nesse ocasião, o sujeito terá sido capaz de abdicar de seu fantasiar infantil e assumir sua condição de sujeito limitado pela imposição da realidade adulta.

“As observações desse gênero convencera-me de que a exigência de associação livre, a realizar plenamente, exigência que apresentamos de imediato ao paciente, é uma exigência ideal que, por assim dizer, só é preenchida uma vez terminada a análise. Associações que têm sua fonte nessas pequenas deformações atuais conduzem com muita frequência a eventos infantis análogos, mas muito mais importantes, por conseguinte, a períodos em que o logro, automático no presente, ainda era consciente e deliberado”.15

Nessa perspectiva, o processo de análise para Ferenczi deve ser algo destinado a promover uma reformulação na estrutura do sujeito capaz de permiti-lo chegar a uma espécie de renúncia de seu universo mentiroso. Dessa forma, a análise não deve ser simplesmente uma análise de sintomas, mas algo que incida sob o caráter de uma forma mais generalizada. É preciso que se realize uma verdadeira quebra do caráter para que o sujeito entre em contato com uma realidade mais satisfatória, mais verdadeira, segundo Ferenczi mais ajustada e formulada de acordo com novos padrões de avaliação. Vejamos o que afirma Ferenczi a esse respeito: “De fato, a dissolução da estrutura cristalizada de um caráter é apenas, a bem dizer, uma transição para uma nova estrutura certamente mais adequada, em outros termos, um recristalização. Sem dúvida, é impossível descrever em detalhe o aspecto dessa nova vestimenta, com a única exceção, talvez, de que será com certeza melhor ajustada, ou seja, mais adaptada ao seu objetivo.”16

Para Ferenczi, portanto, a análise deve ter seu fim quando o sujeito for capaz de abandonar uma certa posição hipócrita acerca de sua vida pulsional para então assumir uma liberdade que lhe era até então inviável. Com a quebra do caráter estabelecida pela análise e, por conseguinte, a distinção efetuada entre o mundo enganoso da fantasia e o mundo possível da realidade, o sujeito teria à sua disposição a percepção de um mundo mais junto e mais palpável: “A separação muito mais nítida do mundo da fantasia e do mundo da realidade, obtida pela análise, permite adquirir uma liberdade interior quase ilimitada, logo, simultaneamente, um melhor domínio dos atos e decisões, em outras palavras, um controle mais econômico e mais eficaz”.17

Se o analisando deve ser conduzido a um processo de quebra de caráter e renúncia de uma atitude hipócrita diante dos acontecimentos, o que se deve esperar daquele que conduz esse processo, o analista, em termos de sua maneira de se posicionar ao longo do tratamento? Ferenczi será enfático ao afirmar que o analista deve ser ele próprio capaz de ter renunciado à sua hipocrisia. Bem entendido o analista deve ser ele mesmo “digno de confiança”, “benevolente” e manter-se inabalável diante dos possíveis deslizes cometidos pelos analisandos. Dessa forma, o analista deve ser capaz de reconhecer seus erros, suas fraquezas e de se admitir ele também tendo abandonado suas relações infantis patológicas. O analista deve assim se deixar ser surpreendido e posto à prova a fim de que o analisando possa efetivamente passar por uma experiência que legitime a quebra de caráter de maneira efetiva. Assim, se o analista se mostrar dono de uma paciência inabalável, capaz de fazer com que o analisando, a partir da transferência, se veja diante de alguém que foi capaz de renunciar à neurose, então Ferenczi acredita que aí se poderá figurar algum tipo de efeito analítico: 

“Pois se o paciente não pôde surpreender o analista em flagrante delito de não dizer a verdade, ou de deformá-la, se o paciente chega, pouca a pouca, a reconhecer que é efetivamente possível permanecer objetivo, mesmo diante da criança mais insuportável, se não pôde descobrir por esse meio nenhuma tendência para enfatuação no médico, apesar de todos os esforços feitos para provocar nele tais indícios, se o paciente é obrigado a admitir que o médico reconhece também de bom grado seus próprios erros despropósitos, que ocasionalmente cometa, então é rato que se possa colher, à guisa de recompensa pelo considerável esforço despendido, uma mudança mais ou menos rápida no comportamento do paciente.”18

Assim, chegamos ao ponto nevrálgico do texto ferencziano. Trata-se de se afirmar que para que o analista possa conduzir uma cura, a condição fundamental é a de que ele mesmo tenha sido devidamente analisado. Para que o analista possa ser benevolente possa ser capaz de renunciar a sua hipocrisia, ser capaz de reconhecer sua falhas e limitações é preciso que ele tenha sido analisado. Pode-se dizer que para Ferenczi, o importante de se pensar acerca de um fim de análise é justamento o fato de se estabelecer que há algo a ser atingido por todos aqueles que desejam ser analistas. Desse modo, Ferenczi pensa o problema do fim da análise, nós afirmamos, para poder dizer que só pode haver análise bem sucedida quando aquele que conduz o processo – o analista – tiver ele próprio conhecido os limites de sua análise pessoal. Assim, todo analista tem que ter terminado sua análise: “O analista, de quem dependo o destino de tantos seres, deve conhecer e controlar até as fraquezas mais escondidas de sua própria personalidade, o que é impossível sem uma análise inteiramente terminada”.19

Se o analista terminou sua análise- e é por isso que Ferenczi quer pensar a questão do término da análise – então ele será capaz de ser uma espécie de testemunha de algo que pode operar nele próprio enquanto efeito benéfico de uma análise. Desse forma a análise passa a incluir em sua dimensão o próprio percurso do analista. A partir de agora, mais do que nunca, o analista se vê incluído no processo transferencial, sendo parte integrante e fundamental do desenrolar das análises. Dessa forma, para Ferenczi, não há como haver análise se o analista não utilizar de intervenções que sejam realmente afetivamente investidas do que Ferenczi chamou de “verdade”. Isso quer dizer que Ferenczi caminha cada ver mais para uma concepção do processo analítico que abandona as intervenções intelectuais para privilegiar aquilo que passa pela ordem do “sentimento”.

Bem entendido, a partir de agora, o analista deve ser capaz de “Sentir Com” o analisando, acompanhá-lo em sua démarche e validar seu processo a partir de sua própria história analítica. O analista, atento ao efeito advindo de sua análise pessoal, deverá ser capaz de acompanhar o analisando de maneira afetiva em seu percurso. Assim, o analista que se viu limitado pelos efeitos da castração em si próprio e que pôde experimentar sua própria experiência de desamparo será ele mesmo capaz de fazer com que a experiência de seus analisandos não seja da ordem de um ocorrido intelectual para transformar-se em algo capaz de ser da ordem de uma experiência de “translaboração”, onde, além da análise de sintomas e da resistência, faz-se incluir também a exigência do fator quantitativo(econômico).

“Estou firmemente convencido de que, quando se tiver suficientemente aprendido sobre seus modos de atuar e seus erros, e se tiver aprendido pouco a pouca a contar com os pontos fracos de sua própria personalidade, irá crescendo o numero de casos analisados até o fim.”20



Carlos Mario Alvarez, Psicanalista






sexta-feira, 22 de abril de 2016

De que Inconsciente se trata na Psicanálise? – por Carlos Mário Alvarez

Freud descobriu que os sonhos eram uma tentativa de realização de desejos Inconscientes. Fantasias e fragmentos de idéias que só poderiam se manifestar quando a censura fosse repousar junto com o corpo. Ou seja, que os sonhos seriam o momento onde muito daquilo sobre o que não se poderia saber em vigília apareceria de forma distorcida, portanto, transformada, nas cenas pictóricas oníricas.

Lacan, assim como Freud, formulou também várias hipóteses sobre o Inconsciente. Muitas destas hipóteses eram afirmadas na forma de frases ou axiomas contundentes, às vezes enigmáticos, seguindo à própria forma de manifestação do Inconsciente. Numa destas formulações, Lacan disse que “O Desejo (Inconsciente) é sempre Desejo do Outro”. Ou seja, que aquilo que alguém pode formular como Desejo não tem originalidade a partir do próprio indivíduo mas entra em uma cadeia de elementos que seguem, se acoplam, imitam, repetem, formas de desejar que estão em Outro lugar. Mas em que Outro lugar? Na voz tenra materna da mãe, no “não do Pai”, no olhar do amado, no tom de voz da babá, nas ordens da publicidade, nas bobagens ditas pelas “celebridades”…

Enfim, o Inconsciente de que trata a Psicanálise não é facilmente designável, não é apreensível e não representa as vontades manifestas ou ocultas de um ser. Ou seja, trata-se de um dispositivo que transforma afetos e representações (para utilizarmos a linguagem freudiana) em formas muitas vezes esquisitas, não facilmente explicáveis e, em geral, alienadas e alienantes. Não pertence a ninguém mas circula por aí, como poeira no vento.

Por isso, para que uma Psicanálise aconteça, é preciso que ela seja menos uma conversa entre dois para ser um “entra e sai” de idéias que se reorganizarão a partir de escolhas feitas sob novos prismas.

A Psicanálise precisa permitir que as falas se desdobrem, se redobrem e se desobriguem, assim, a significar o que se supõe que elas significam. O inconsciente será melhor tratado quando o analisando perder o fio da meada daquilo que diz (sintoma) e encontre e se afine com a errância daquilo que teme (o horror da castração, da finitude) .
Uma Psicanálise assim, toma o Desejo Inconsciente como condição e não como mal a ser debelado.


Carlos Mario Alvarez, Psicanalista, Professor convidado da Sorbonne (Paris 2), Mestre em Teoria Psicanalítica (UFRJ) e Doutor em Letras (Puc-Rio) além de membro fundador da Formação Freudiana (RJ). Atualmente coordena o Projeto Psicanálise Descolada que oferece cursos sobre a obra de Freud, supervisão para Psicanalistas e Workshop.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Fotos do Curso: Psicanálise, Bissexualidade e Androginia


O curso Psicanálise, Bissexualidade e Androginia, foi realizado no dia 30 de Janeiro de 2016. No aprazível Rosita Café Bar,  situado no Shopping Downtown, Barra da Tijuca - Rio de Janeiro. 

Os alunos foram recebidos com um delicioso café da manhã, no decorrer do curso houve espaço para debates e emissão de certificado.


O curso foi realizado com coordenação do Carlos Mario Alvarez, 
Psicanalista, Professor convidado da Sorbonne (Paris 2), Mestre em Teoria Psicanalítica (UFRJ) e Doutor em Letras (Puc-Rio) além de membro fundador da Formação Freudiana (RJ). Atualmente coordena o Projeto Psicanálise Descolada que oferece cursos sobre a obra de Freud, supervisão para Psicanalistas e Workshop.











O grupo Psicanálise Descolada agradece a presença de todos.

Até o Próximo!



terça-feira, 12 de abril de 2016

Ferenczi: Críticas e Aprendizados com a Técnica Ativa Cap.3, Parte XI

  É preciso dizer que a técnica ativa recebeu críticas. Não apenas de parte da comunidade analítica que não recebeu bem as novidades trazidas por Ferenczi, mas também críticas feitas pelo próprio Ferenczi. As críticas em questão, nós entendemos, devem ser discutidas em suas especificidades uma vez que faz parte do próprio processo de aceitação de ideias ou concepções que elas possam ser devidamente avaliadas.

 Nessa perspectiva, acompanharemos agora o último texto de Ferenczi dedicado à técnica ativa, publicado em 1926 e denominado de “Contra Indicações da Técnica Ativa”.  

  A primeira observação que Ferenczi faz nos é da maior importância. Trata-se de avaliar, ele próprio, as relações e consequências que envolvem as ideias de atividade e transferência. Ferenczi reconhece que durante o período em que esteve trabalhando em torno da técnica ativa, esteve mais preocupado em avaliar os efeitos de seus atos do que propriamente de refletir acerca da transferência na técnica ativa. Assim, sua avaliação crítica vai no sentido de dizer que há um perigo na situação de atividade: ela pode gerar uma oposição entre o ego do paciente e o do analista. Isso significa dizer que seu caráter de frustração pode ser maléfico à tentativa de se estabelecer laços transferenciais entre analista e analisando. Daí a ideia de que a atividade nunca deve incidir no início do tratamento mas sempre numa perspectiva de fim de análise. A atividade, se praticada sem um critério cuidadoso, é um recurso que traz como possibilidade a perturbação da relação transferencial e, por conseguinte arriscada em situações onde a transferência não tenha sido amplamente estabelecida . Entendemos que essa observação crítica sobre a questão da transferência na técnica ativa é por si só parcial e não traduz todo o pensamento acerca da relação ente atividade e transferência. Acreditamos que a função maior dessa posição crítica seja a de alertar os analistas quanto ao perigo do abuso da atividade.

  Falando em abuso, é preciso dizer que uma outra crítica que Ferenczi faz relativa à atividade diz respeito ao perigo de se abusar do poder autoritário trazido pelas intervenções proibitivas e injuntivas. Aqui, situação grave onde Ferenczi chega a reconhecer que foi além do que deveria ter se permitido ao propor certas atividades aos analisandos. A solução, segundo o próprio Ferenczi é repensar a validade e intensidade daquilo que se impõe ao paciente. De qualquer forma, mais uma vez Ferenczi parece estar mais preocupado com o uso que certos analistas podem fazer da autoridade transferencial do que propriamente com a questão da atividade. Nesse sentido, ele alerta o perigo de jovens analistas se empolgarem com a técnica ativa: “Nas mãos de um novato, a atividade poderia facilmente conduzir a um retorno dos procedimentos pré-psicanalíticos da sugestão e das medidas autoritárias”.

  O risco que se corre quando dos abusos da atividade , segundo Ferenczi, pode beirar a violência. Num processo franco de submissão do analisando as ordens do analista, há o perigo de impor-se uma situação sádica capaz de causar verdadeiros danos psíquicos à subjetividade do paciente: “De sorte que acabei por me convencer de que essas mesmas instruções formais representam um perigo; elas levam o médico a impor à força a sua vontade ao paciente numa repetição exageradamente fiel da situação pais-criança ou a se permitir posturas perfeitamente sádicas de professor”.

  Tal fato já tinha sido motivo de preocupação para Ferenczi anteriormente. Em “Psicanálise dos Hábitos Sexuais”, ele já havia se dado conta de que as injunções e proibições traziam em si um caráter de repetição de passagens traumáticas onde as crianças, durante a infância experimentam o poder autoritário de seus educadores. Contudo, para o próprio Ferenczi, trata-se de afirmar que na atividade, por se tratar de uma experiência analítica, mesmo os efeitos mais autoritários da intervenção do analista poderiam servir como material de elaboração para tais situações problemáticas. Bem entendido, trata-se de pensar que o analista procuraria uma vez o material surgindo à tona, reparar o efeito patogênico de uma educação violenta. Vejamos como se manifesta o próprio Ferenczi: “As injunções e interdições formuladas pelo médico repetem, de alguma forma, as ordens autoritárias dadas aos personagens importantes da infância, porém com uma indiferença não desprezível: na infância, tudo concorria para privar a criança do prazer, enquanto que na análise, essa primeira educação excessivamente bem sucedida é substituída por uma outra que deixa ao erotismo a margem que lhe cabe direito”

 Ainda nesse sentido, Ferenczi realiza uma tentativa de atenuar o grau autoritário de certas intervenções. Para ele, as injunções e proibições deveriam ser entendidas como brandas sugestões que teriam como finalidade propor novos parâmetros de experimentação em certas situações. Ele salienta que se está longe de se propor um lugar ditatorial impositivo para o analista. Não, isso seria retrocesso. Tratar-se-ía mais de dar sugestões favoráveis que pudessem encorajar o analisando a ir além de suas inibições. Tal questão é enfatizada numa nota de rodapé inserida no mesmo “Psicanálise dos Hábitos Sexuais” que passamos a transcrever nesse momento:” As expressões ‘injunção’ e ‘interdição’ são bastante ambíguas e não dão uma ideia muito exata da maneira como, em meu entender, essas medidas devem ser utilizadas. Eu teria preferido falar de conselhos negativos e positivos para mostrar que se trata menos de instruções formais e imperativas, como é habitual na educação das crianças do que de modos de comportamento que são suportados pelo paciente, de certa forma a título experimental, de acordo com o médico, ou pelo menos com a firme esperança de que sua utilidade venha a ser finalmente comprovada. Nada está mais distante das intenções do psicanalista do que desempenhar o papel do ditador onipotente ou dar livre curso a uma severidade sádica. agindo assim, ele recairia na antiga psicoterapia autoritária. É raríssimo fazer o prosseguimento do tratamento depender da aceitação dos nossos conselhos”.

  De qualquer forma, essa prática abusiva do poder e a extrema vulnerabilidade em que se encontram os analisandos quando invadidos pelo tom opressor das injunções, há algum tempo já tinham feito o próprio Freud criticar e não mais acompanhar Ferenczi no apoio à atividade. Na verdade, as críticas do próprio Freud foram com certeza o fator mais importante para que Ferenczi fizesse uma auto-reflexão crítica por relação à prática da técnica ativa. Assim, Joel Birman em “Finitude e Interminabilidade do Processo Analítico” mostra como Freud se ressentiu dos efeitos invasivos da técnica ativa: “Vale dizer, quando Ferenczi decide ter uma incidência direta no real da existência de seus analisandos, ao instituir ações para mobilizar a circulação libidinal na análise, Freud não mais o acompanha. Portanto, a crítica freudiana não se centra na pertinência da prática da atividade, mas na pretensão abusiva de invadir a realidade do
analisando para provocar transformações na circulação libidinal e renovar a produção de representações”.

  Assim, a solução que Ferenczi dá a esse fator tão delicado é dizer que não se trata de realizar injunções intransigentes, mas que cabe ao analista lançar mão de uma “flexibilidade elástica”. É preciso que as injunções não tenham um caráter coercitivo, mas que saibam respeitar os limites impostos pela própria transferência: “Somente quando o paciente vê que o médico não considera a observância dessas medidas uma condição sine qua non, portanto, quando não se sente sob a ameaça de uma coerção inexorável, é que ele aceita secundar as ideias do analista”.

 Nessa mesma linha da ‘flexibilidade’, Ferenczi realiza uma severa crítica à atitude, por ele tão usada, de fixar um prazo para o termino do tratamento. Não que isso não tenha funcionado em alguns casos, mas tudo indica que o uso desenfreado dessa prática só poderia apontar para uma falta de crédito por parte do analista no próprio tratamento analítico. Ferenczi não critica aqui senão a atitude compulsiva do analista de querer dominar totalmente as coordenadas de uma prática tão imprevisível como a experiência analítica. É preciso que o analista fique atento para o caráter traumático que podem ter as determinações de prazo para o fim das análises. “Como já dissemos, a fixação de um prazo conheceu brilhantes êxitos em certos casos e em outros o mais lamentável fracasso. Comprovou-se que mesmo o analista experimentado pode ser levado, em sua impaciência, a considerar prematuramente o caso como maduro para o aviso prévio”.

  Se a fixação do prazo para o término das análises consistia em uma arma a ser utilizada contra a resistência, ela podia, por outro lado, Ferenczi o constatou servir à própria resistência. Assim, se o analista fixava um prazo, podia ocorrer que o analisando se agarrasse a essa expectativa de um fim para justamente não dizer o que poderia. Assim, Ferenczi é levado a concluir que o analista deve ter uma dose considerável de paciência e saber esperar pelo advento do material frutífero. Daí, a conclusão de que nem sempre a imposição funciona e de que, mais cedo ou mais tarde, o analisando começaria a dizer o que deveria ser dito, uma vez que a análise não mostraria, de antemão, ter um fim previsível: “(...) a perspectiva de uma análise de certo modo interminável o convencerá mais cedo ou mais tarde, de que a nossa paciência é maior do que a dele, o que o decidirá a abandonar, enfim, suas últimas resistências”.

 Teresa Pinheiro em “Ferenczi do grito à palavra” relata de forma bastante pertinente as dificuldades trazidas pela técnica ativa. A autora realça o caráter traumático que adquire a transferência quando da possibilidade do analisando, ao invés de desfazer suas ligações transferenciais com o analista, passa, de forma contrária, a identificar-se com ele. Tal identificação seria reinstauradora de uma situação passada onde o sujeito teria vivenciado semelhante submissão a uma figura agressora. A visão de Teresa Pinheiro,no que diz respeito a relação entre atividade e transferência nos parece bastante coerente com a teoria do trauma em Ferenczi (nota) mas não deixa de nos parecer bastante pessimista em relação ao próprio entendimento do que foi a técnica ativa. A nosso ver, a autora faz uma leitura crítica à atividade que não leva em conta os aspectos mais favoráveis relativos a essa prática. Em última instância, acreditamos que a técnica ativa foi essencial justamente no que diz respeito à concepção da
transferência a partir do entendimento da segunda tópica freudiana. Assim, acompanhemos o pensamento da autora:

 “Ferenczi deu-se conta de que a técnica ativa não lhe trouxe, por variadas razões, o que ele foi nela procurar. Primeiro, seu caráter autoritário não provocava no paciente sentimentos hostis para com o analista; muito pelo contrário, remetia o paciente à cena traumática, a uma nova submissão ao agressor. E mais, o material pesquisado com este método apareceria de qualquer maneira na análise, mais cedo ou mais tarde, sendo suficiente que o analista soubesse esperar. O emprego da técnica ativa seria, portanto, um sinal de pressa do analista e não um artifício indispensável. Ferenczi acreditava também que a técnica ativa poderia se mostrar útil no fim da análise, permitindo ao paciente resolver sua transferência. Mais aí também a técnica ativa produziu efeito contrário: o paciente não se livrava da transferência. 

  Curiosamente identificava-se com o analista e submetendo-se docilmente ao desprazer que lhe era imposto, só fazia ainda mais aumentar sua ligação transferencial. O conforto, combatido pela técnica ativa, permanecia. Ao invés de surgir a transferência negativa com a qual Ferenczi contava, o que aparecia era a ‘docilidade’ do paciente frente às injunções do analista”.
Após essa observação, caminhemos com o texto ferencziano. Outro ponto a que faz alusão Ferenczi diz respeito às atitudes dos pacientes em relação à uma certa permissividade trazida pela atividade. Segundo ele relata, muitos passariam a interpretar a sessão analítica como sendo um lugar onde tudo lhes seria permitido: gritar, cantar, pular, etc. Para Ferenczi, isso indica que “os pacientes procuraram levar às raias do absurdo a liberdade de ação que lhes era oferecida”. A isso Ferenczi responde que cabe ao analista uma atitude de “Laisser Faire”, isto é de permissividade ótima capaz de deixar que os analisandos dessem expressão às pulsões infantis que outrora foram levados a recalcar. Aqui, fazemos a observação que a questão trazida pelo “Laisser Faire” será por nós tratada no capítulo 4 dessa dissertação, onde veremos que a posição de Ferenczi no que diz respeito ao lugar do analista estará girando em torno de sua concepção da neocatarse.

  Ferenczi insistirá que a atividade não deve fazer com que o analista deixe seu lugar de “observador e conselheiro benevolente”. Isso quer dizer que ao analista não cabe responder positivamente à contra-transferência e que os desejos de ser amado por conta do analisando devem ser frustrados. A análise deve sim, “repetir as reações do paciente à privação em condições mais favoráveis do que aquelas que foram possíveis na infância e corrigir os distúrbios do desenvolvimento cuja reconstituição histórica possa ser feita”.

  Esse “repetir reações” em análise, como não entendê-lo desde a especificidade trazida pelos efeitos da atividade sobre a transferência? Pois é fato que, como já demonstramos, a atividade traz em si um trabalho que incide sobre os afetos capaz de privilegiá-los em sua capacidade de atualizar os conflitos na própria relação transferencial e com isso darem ao paciente aquilo que Ferenczi entendia como sendo o principal fator responsável pela cura analítica: o sentimento de convicção.

  Nessa perspectiva, se acompanhamos bem o sentido do texto ferencziano, depreendemos que a prática da atividade pode ter sido, em algum momento abusiva e chegado mesmo a ferir os limites da transferência. Quanto a isso, pensamos ter satisfatoriamente salientado as
críticas vindas do próprio Ferenczi. No entanto, não podemos deixar de apontar que para Ferenczi, algo de fundamental se depreende da atividade: a análise não pode deixa furtar-se a uma prática onde o privilégio das atenções deve recair sobre a possibilidade da transferência se oferecer como palco para a experimentação das vivências afetivas in vivo, ou seja, causadas e mobilizadas por uma espécie de “aqui e agora”. Não se deve esquecer que Ferenczi luta nesse momento contra uma forte tendência do movimento analítico que procurava fazer da experiência de análise um lugar de transmissão intelectual (mestre/aluno), violência interpretativa(uma prática exclusivamente tradutiva) ou mesmo algo que se fizesse num modelo meramente educativo.

  Longe dessas práticas, a atividade, apesar de suas contra-indicações, ensina a  Ferenczi que a transferência tem uma função fundamental na direção da cura analítica. Ela deve ser tomada em sua dimensão onde se instaura uma relação em que não se fica exclusivamente num polo tutorial (analista/analisando) mas onde se pode formular uma espécie de tríade onde a experimentação afetiva vem funcionar como um terceiro capaz de garantir a experiência de análise como uma experiência fruto de uma relação propriamente dita. Em relação a essa dimensão afetiva da qual depreende todo o seu entendimento da transferência, Ferenczi afirma quanto à sua experiência analítica que “o conhecimento de uma parte da realidade, talvez a mais importante, não pode converter-se numa convicção pela via intelectual mas somente na medida em que ela estiver em conformidade com a vivência afetiva.”.

  Para Ferenczi, portanto, o período de pesquisa relativo à prática da atividade lhe mostra que não pode haver transferência sem afetividade. Da mesma forma, não pode haver cura analítica sem que se possa fazer da transferência o palco capaz de acolher o excesso pulsional que insiste em se fazer presente no psiquismo do sujeito. Assim, podemos afirmar que se Ferenczi chega a recuar em sua atividade na medida em que esta se mostra abusiva, invasiva e agressora em algumas circunstâncias, por outro lado somos levados a concluir que a herança deixada por esse período de pesquisa reside exatamente no fato de que, daqui por diante, Ferenczi será obrigado a pensar sua prática desde os efeitos da própria situação analítica, no que tange às modulações pertinentes à relação transferencial. No próximo capítulo, estaremos vendo os rumos que toma a prática ferencziana depois da técnica ativa. Alí, esperamos mostrar como as dificuldades trazidas pela atividade foram capazes de levar Ferenczi a pensar cada vez mais numa certa metapsicologia do lugar do analista.


Carlos Mario Alvarez, Psicanalista.


terça-feira, 5 de abril de 2016

Transferência e Construção Cap.3, Parte X

    Vimos que Ferenczi provoca as fantasias e atualiza o circuito do desejo através da  transferência - onde o analista, como acompanhamos, assume um papel privilegiado na realização das fantasias do paciente.  No entanto, o trabalho analítico não encontra seu fim antes que se possa, segundo Ferenczi, realizar-se um trabalho de (re)construção das ligações psíquicas.
O que se passa é que tanto o ato do analista quanto a experiência de transferência, servem, na economia do tratamento, para que o analisando possa ter (re)construída a sua história libidinal.
A questão da construção em psicanálise assume um papel fundamental a partir de um certo momento.  Sabemos que Freud, em pelo menos dois de seus importantes casos clínicos publicados, lançou mão de construções que serviram como intervenções capazes de elucidar material analítico até então não conhecido.  Basta que recorramos ao caso do homem dos ratos, para ver que, ali, Freud reconhece toda a gênese de uma neurose obsessiva através da reconstrução da sexualidade infantil do homem dos ratos, onde o lugar que ocupava o pai do paciente em sua economia psíquica, revelava o quanto sua posição  era a de alguém que se encontrava identificado ao desejo paterno.  A propósito da construção, Freud a estabelece a partir de fragmentos ditos em análise que remontariam à infância remota do paciente.  É a partir de uma questão ligada à masturbação e a consequente articulação de uma fantasia de punição que Freud constrói para seu analisando, toda sua história de identificação libidinal.
Com o caso do homem dos lobos, não é diferente.  Freud é levado, a partir de um sonho crucial, a construir com precisão de detalhes toda uma existência de uma cena primária, capaz de ter sido responsável por toda a vida neurótica do paciente.  Novamente aqui, a construção advém da boca do analista a partir de um trabalho que organiza os fragmentos ditos em análise.
Em 1937, portanto em um período consideravelmente tardio, Freud dedica um ensaio para tratar da questão da construção. “Construções em Análise”, um dos seus últimos textos, filho temporão da técnica analítica em Freud, traz posições extremamente fecundas para o entendimento da função da construção em análise.
Aqui, na presente dissertação, procuraremos levantar questões que nos ajudem a cotejar com o trabalho de Ferenczi no decorrer de sua técnica ativa, mais principalmente, no que toca à questão das fantasias provocadas.
O primeiro importante ponto a ser marcado é a própria definição que Freud dá aos objetivos do trabalho analítico.  Vejamos o que ele diz a esse respeito: “o trabalho da análise visa a induzir o paciente a abandonar os recalques (empregando a palavra no sentido mais amplo) próprios a seu primitivo desenvolvimento e a substituí-los por reações de um tipo que corresponda a uma condição psiquicamente madura. Com esse intuito em vista, ele deve ser levado a recordar certas experiências e os impulsos afetivos por elas invocados, as quais presentemente ele esqueceu”.
Para que o objetivo da análise possa ser vencido, ou seja, para que o recalque dê lugar a representações até então mantidas inconscientes, o trabalho de análise deve levar o analisando a poder recordar experiências ligadas à sua vida infantil e integra-las a impulsos afetivos que estejam em consonância com tais lembranças. Isto, como foi transcrito acima, está posto com todas as letras por Freud.  A análise, aproximadamente quarenta anos depois de seu início, continuava a ter, por objetivo último, a rememoração.
 Acontece que, se isso é verdade, por outro lado, uma série de resignificações dos conceitos e o desenvolvimento da teoria freudiana como um todo, não nos deixam pensar que Freud fala, nesse texto em questão, de ‘recalque’, ‘rememoração’, ‘inconsciente’, dentre outros, da mesma forma que os concebia há quarenta, vinte ou dez anos antes.  Certamente que não nos será possível mostrar, na presente dissertação,  todas as nuanças que levaram a reconsiderações tanto dos conceitos quanto da própria prática analítica.  Nos interessará, no entanto, percorrer o conceito de construção, tentando perceber sua função dentro do processo analítico, assim como pensá-lo na perspectiva do texto ferencziano.
De início, dois pontos merecem ser notados no que diz respeito a essa definição transcrita acima acerca dos objetivos de uma análise: o primeiro é que Freud trata aqui o recalcado no que ele designa por “sentido mais amplo”.  Com isso, estamos distante de uma ideia de recalque da primeira tópica que organizava um inconsciente que se constituía como um sistema fechado de representações.  A segunda observação, que vem em função da primeira, diz respeito à importância decisiva que Freud dá aos impulsos afetivos ligados ao recalque.
Nesse sentido, se acompanhamos o texto mais adiante, veremos que Freud se refere o tempo todo com muito interesse ao que chama de produção de “derivados dos impulsos afetivos recalcados”.  Junto dos sonhos e dos atos falhos, interessa ao analista estar atento ao que se verifica produzir enquanto “impulso  afetivo recalcado”.  Nessa direção, Freud chama atenção também para o insistente trabalho da repetição, a qual ele identifica como “repetição dos afetos pertencentes ao material recalcado”.  Fundamental de ser notado, é que essa repetição de afetos se verifica sob a forma de ações que incidem fora e dentro da situação analítica.
Assim, esse importante texto vai nos indicar exatamente qual o lugar da transferência na direção da cura: ela vai poder fazer com que incida na situação analítica, o trabalho da repetição, que, em última instância visa inscrever-se na cadeia de sentidos do sujeito.  Acompanhemos Freud por ele mesmo: “Nossa experiência demonstrou que a relação de transferência que se estabelece com o analista, é especificamente calculada para favorecer o retorno dessas conexões emocionais”.
O ponto em que Freud quer chegar, tomando por referência a função da transferência, é exatamente o de responder a uma questão: qual a tarefa do analista?
Respondendo.  O analista, ele não pode recordar absolutamente nada da história de seu analisando porque ele não a viveu.  Por outro lado, Freud constata que o analisando não pode se recordar de tudo o que lhe seria esperado para o andamento de sua análise.  É nesse ponto mesmo que Freud indica a tarefa do analista: o analista, ali onde o analisando não se lembra, ali onde ele não tem acesso, o analista constrói.  Constrói a partir da transferência, uma vez que ela é o campo onde as repetições incidem exigindo presentificação.
Se, por um lado, o que interessa a Freud, como vimos , é a recordação do paciente acerca de sua história libidinal, por outro mostramos que todo o trabalho sobre construções em análise mostra que isso nem sempre é possível.  Aparentemente teríamos um impasse: como atingir a cura analítica se aquilo que haveria de mais essencial, a saber, que o paciente se recordasse, não pode ser atingido por completo.  A resposta de Freud é: o analista constrói.  A partir disso, uma outra questão: O que  torna válida a construção do analista uma vez que ela parte de um outro que não aquele que enuncia?
A resposta de Freud é aparentemente simples: o que valida a construção é o sentimento de convicção alcançado pela experiência analítica.  Vejamos o que diz o texto: “O caminho que parte da construção do analista deveria terminar na recordação do paciente, mas nem sempre ele conduz tão longe. Com bastante frequência não conseguimos fazer o paciente recordar o que foi recalcado. Em vez disso, se a análise é corretamente efetuada, produzimos nele uma convicção segura da verdade da construção, a qual alcança o mesmo resultado terapêutico”
Com isso, temos que Freud abandona uma expectativa de rememoração, ou pelo menos admite níveis distintos para essa rememoração em um processo de análise.  O mais importante é, pois, a convicção que se torna possível através do curso da análise.  Essa convicção, nós a sabemos, é possibilitada pelo grau de verdade da experiência proporcionado pela atualização dos afetos na transferência.
Se voltarmos nosso interesse novamente a Ferenczi, veremos que ele já em sua técnica ativa (1919-1926) experimentava uma prática que tinha como finalidade, menos uma rememoração inconsciente do que uma criação inconsciente.  Podemos dizer criação porque a tônica esteve sempre na perspectiva de se construir em análise a partir do que a situação de transferência leva a se experimentar.  Ferenczi abandonou, a partir de sua técnica ativa, todo o interesse em privilegiar a rememoração.  Para ele, a atualização, no sentido da incidência da repetição freudiana seria o que daria chances ao processo analítico de promover modificações internas no sujeito.  Para tal, o caminho passava a ser a possibilidade de se obter um grau de convicção capaz de levar o analisando a reconhecer, em seu percurso, as nuanças de sua subjetividade.
Assim, provoca-se onde a princípio só o analista poderia provocar.  Provoca-se porque a transferência terá a chance de catalisar para si, a efervescência de algo que nunca viria à tona porque não teria recursos (fantasias).  A (re)construção funciona no sentido de uma tomada da palavra pelo analisando, que vinda do analista num primeiro momento, se fará articular com os atos falhos , sonhos e reminiscências  do paciente.   A construção de um inconsciente, assinado à dois, leva a crer que, em Ferenczi, ao menos desde a técnica ativa, o inconsciente é uma espécie de transcendência possibilitado pela transferência.



Carlos Mario Alvarez, Psicanalista.