domingo, 22 de novembro de 2015

Transitoriedade e Transferência Cap.2, Parte 5

Transitoriedade e Transferência


No ano de 1901, Freud escreve seu "Sobre a Psicopatologia da Vida Cotidiana”38. Esse cuidadoso trabalho ganhava sua importância na medida em que para Freud, tornava-se necessário explorar por todas as vias possíveis o sentido de sua descoberta: o inconsciente. Praticamente na mesma época em que publicava “A Interpretação dos Sonhos", Freud se dava ao trabalho de colher intermináveis relatos de experiências vividas por ele e por seus colaboradores, capaz de elucidar todo o sentido de sua hipótese, a saber, a que tinha no determinismo psíquico (moções inconscientes), a motivação para todos os atos que, até então pareciam não ter qualquer motivação senão a do equívoco por ele próprio.
“Esquecimento de nomes próprios“, “esquecimentos de palavras estrangeiras", “lapsos da fala", “lapsos de leitura", “atos falhos”, “atos sintomáticos" dentre outros, encontravam-se na categoria de serem , segundo Freud, pequenas psicopatologias, pequenos deslizes presentes no cotidiano de cada um, capazes de trazerem em seu bojo um mal estar na medida em que algo da ordem da intenção consciente se via falhado, dando lugar a uma estranheza ocasionada pela emergência de um material substituto.
Aquele que enunciava algo do qual absolutamente não esperava – pensemos numa troca de intenções - encontrava-se em maus lençóis, pois o mal estar era muito mais por algo que deixava-se captar no ar como uma intenção outra do que propriamente pelo falo de se ter equivocado impunemente.
 Nessa medida, a hipótese de Freud é de que a força de sustentação para todos esses atos aparentemente equivocados estaria sendo garantido pelo que fosse da ordem do desejo inconsciente. Os atos falhos seriam, dessa forma, derivados do inconsciente, ou seja, atos que foram deformados devido ao trabalho da censura de maneira a funcionarem como uma formação de compromisso entre o sistema inconsciente e o consciente. Dessa forma, as psicopatologias da vida cotidiana, não são atos desprovidos de intencionalidade ou sentido, mas ao contrário, representam, em um determinado plano, desejos inconscientes que foram inadmissíveis à consciência.
Assim, os atos falhos, os sonhos e os sintomas são todos maneiras pela qual o recalcado atualiza-se na consciência. Logo no primeiro capitulo, dedicado ao “esquecimento de nomes próprios”, Freud opera uma explicação que esclarece o processo pelo qual se dá o esquecimento do nome. Mais que isso , Freud faz alusão à existência de leis que garantem a escolha daquilo que se apresenta como equivoco: "Trata-se dos casos em que o nome não só é esquecido, como também erroneamente lembrado. Em nosso afã de recuperar o nome perdido, outros - nomes substitutos - nos vêm à consciência reconhecemos de imediato que são incorretos, mas eles insistem em retornar e impõem com grande persistência. O processo que deveria levar à reprodução do nome perdido foi, por assim dizer, deslocado, e por isso conduziu a um substituto incorreto. Minha hipótese é que esse deslocamento não esta entregue a uma escolha psíquica arbitrária, mas segue vias previsíveis que obedecem as leis"39.
Bem entendido, as leis a que faz menção Freud, são as leis que regem o sistema primário, a saber, a condensação e o deslocamento, e toda análise que se fizer das chamadas psicopatologias da vida cotidiana, levarão ao elucidamento de uma intenção inconsciente que se faz presente em qualquer situação.
O psiquismo, num franco processo de defesa, estaria sempre produzindo substitutos que dessem conta de, ao menos parcialmente, representar aquilo que se mostra ameaçador ao eu do sujeito. É preciso fazer notar que Freud sempre lança mão da ideia de deslocamento, para mostrar que esse é o mecanismo pelo qual se opera toda a capacidade defensiva do aparelho psíquico. É assim que Freud entende também os processos de esquecimento de certas intenções, que por serem muito ameaçadoras ao sistema consciente, acabam dando lugar ao esquecimento de outras intenções que menos ameaçadoras, ainda assim mantém vínculo com o material inconsciente: “De qualquer modo, depõe em favor da existência e do poder dessa tendência defensiva o fato de podemos atribuir a ela a origem de processos como os de nossos exemplos de esquecimento. Como vimos, muitas coisas são esquecidas por si mesmas; quando isso não é possível, a tendência defensiva desloca seu alvo e produz ao menos o esquecimento de alguma outra coisa, algo menos importante que tenha estabelecido um vínculo associativo com aquilo que é realmente chocante".40
Se para Freud, ao longo de todo o trabalho em questão, trata-se de mostrar como o pensamento corrente consciente é assaltado frequentemente por atos que lhe imprimem uma situação notadamente equivocada, ou seja, denunciar a existência de atos e intenções falhas que trazem em si a realização de desejos inconscientes, para Ferenczi, em “Sintomas Transitórios no Decorrer de uma Psicanálise”41, também o interesse é falar de atos sintomáticos que interrompem a cadeia normal dos pensamentos, mas com notável diferença: Ferenczi dá ênfase aos atos que irrompem na situação de análise e que trazem a mesma sensação de surpresa e a mesma possibilidade de interpretação oferecida pelos atos falhos trabalhados por Freud.
Para Ferenczi, é como se fosse possível identificar os atos sintomáticos da vida cotidiana, dentro da própria situação de análise. “É frequente ver nos pacientes histéricos o trabalho analítico ser bruscamente interrompido pelo surgimento inopinado de um sintoma sensorial ou motor”42. O que se deve fazer notar aqui são principalmente dois aspectos: 1) os sintomas de que fala Ferenczi são sintomas que surgem por ocorrência da própria análise e, portanto são criações do próprio processo analítico. Da mesma forma que o analista os vê sendo criados como efeito da análise, ele os vê sendo desfeitos a partir de intervenções analíticas.  Por terem esse caráter de serem passageiros, isto é, aparecem e desaparecem durante o próprio processo de análise, Ferenczi dá a eles o valor de serem “transitórios”. 2) Os sintomas “transitórios" diferente dos atos falhos, não pertencem exclusivamente ao universo da linguagem verbal significante (chiste, esquecimento e trocas de nomes), mas têm uma incidência que Ferenczi classifica de orgânica, ainda que para Ferenczi, “se tentarmos descobrir sua significação, constataremos que o sintoma orgânico é a expressão simbólica do mundo afetivo ou intelectual inconsciente".43
Renato Mezan, ao comentar a função transferencial dos sintomas “transitórios” chega a realizar uma comparação destes com os atos sintomáticos trabalhados por Freud em “Psicopatologia da Vida Cotidiana" para mostrar como para Ferenczi, os sintomas “transitórios” têm um valor de criação atual provocada e viabilizada pela transferência. Freud, ao contrário, veria nos atos sintomáticos, a existência de uma verdade que remontaria a todo o passado recalcado. Diz Mezan:
“Enquanto Freud via os atos sintomáticos como produções do inconsciente determinadas pela história pregressa do paciente, Ferenczi vai além e se interroga sobre o papel causativo que a própria situação analítica, galvanizada pela transferência, poderia ter sobre tais manifestações”.44
O próprio Ferenczi alerta de que não se trata da mesma questão que trata Freud acerca dos atos sintomáticos. Isto porque Freud é capaz de construir, através da análise desses atos, verdadeiras histórias bem articuladas e complexas capazes de remeterem a vários níveis de significações junto à história do sujeito. Para Ferenczi, diferente, a única significação que estaria em jogo seria a significação transferencial. Os sintomas “transitórios" não remontariam ao passado mas ao presente da sessão, ao atual trazido pelo movimento analítico que trabalha incidindo por sobre a massa de afetos do sujeito.
Nessa perspectiva, escreve Ferenczi:
“Essas conversões passageiras também se observam no plano motor, se bem que mais raramente. Não estou pensando aqui nos atos sintomáticos na acepção de Freud em Psicopatologia da Vida Cotidiana' , que são atividades complexas, bem coordenadas, mas nos espasmos musculares isolados, às vezes dolorosos, ou então nas falhas musculares que lembram as paralisias”. 45
Os sintomas transitórios são criações da transferência. Se pegarmos um dos exemplos de Ferenczi ao longo de seu artigo, teremos a chance de perceber claramente que o sintoma se forma a partir de uma resposta que se dá (em forma de sintoma) à uma intervenção do analista. Uma paciente vive em análise uma de suas fantasias recalcadas infantis declarando-se amorosamente ao analista. Situação franca de amor de transferência que naturalmente mobiliza o analista a tentar instaurar associações que não levem à concretização de qualquer ato de amor. A recusa do analista em oferecer-se como objeto de amor faz com que a paciente responda com a formação de um sintoma transitório. Sua língua ganha uma espécie de anestesia e sua próxima declaração é afirmar a seguinte impressão: "É como se minha língua tivesse sido escaldada.”47 Para Ferenczi, o que se deu foi que a partir de uma situação onde a transferência veiculou o surgimento de fantasias infantis eróticas e o analista pôde negar-se a realiza-las, a língua serviu de ponte possível para representar toda a decepção da paciente e vergonha imbuídas de uma intensa carga afetiva que não tinha como ser vivida de outra maneira.
A compreensão de Ferenczi é a de que o sintoma transitório surge para aplacar um certo excesso afetivo que aflorou provocado pela própria vivência proporcionada na atualidade da transferência.  “A escolha da língua como lugar do aparecimento do sintoma também estava aqui sobredeterminado por diversos fatores, cuja análise me deu acesso às camadas profundas dos complexos inconscientes”.47
Num outro exemplo, Ferenczi traz à tona situações de transferência que provocam no paciente o desejo de agredir o analista.  Como isso lhe é inviável, a solução que surge é o advento de um sintoma transitório capaz de simbolizar algo que ele gostaria de realizar. Assim Ferenczi diz que o paciente apresenta sensações de dores em algumas partes de seu corpo, parte essas, onde, na verdade, gostaria de atingir o próprio analista. "Tinha a intenção de me agredir; a sensação de um golpe na cabeça representava o desejo de espancar, uma dor no coração revelava a ideia de apunhalar".48
Com a perspectiva dos sintomas "transitórios”, Ferenczi torna-se paulatinamente um analista que se interessa por aquilo que está além do conteúdo das associações livres. Diferente dos demais analistas de sua época, Ferenczi se interessa pelas formações simbólicas que o corpo expressa no período relativo às sessões de análise. Nesse sentido, podemos dizer que Ferenczi não ficava exclusivamente na expectativa do que deveria vir a ser dito pelo discurso do paciente, mas que entendia como mensagens dirigidas à ele as formações sintomáticas transitórias que se valiam de expressões corporais para se manifestarem. Assim, Ferenczi escutava também as dores de dente de seus pacientes (esperando que trouxessem associações além da queixa real), escutava as dores de cabeça que os acometiam durante as sessões e se interessava com bastante intensidade pelas expressões de cada paciente seu ao longo das sessões. Um exemplo típico disso se encontra testemunhado num artigo minúsculo de Ferenczi dedicado a fazer uma observação sobre a maneira de alguns pacientes deitarem-se no divã. O artigo, denominado "Um Sintoma Transitório: a Posição do Paciente Durante o Tratamento”49 revela que para Ferenczi, a escuta analítica deveria funcionar além dos limites do dito. Transcreveremos o artigo na íntegra: “Em dois casos, pacientes masculinos denunciaram suas fantasias homossexuais passivas da seguinte maneira: durante a sessão, em vez de serem estendidos de costas ou de lado, puseram-se bruscamente de barriga pra baixo”.50
Renato Mezan faz uso da ideia de auto-simbólico para explicar o advento desses sintomas “transitórios". Para o autor, toda a vez que a situação de análise provoca um excesso de excitação, o sujeito se defende auto-simbolicamente, criando sintomas ligados a seu próprio corpo capaz de simbolizarem o conflito vivido em transferência. Ao explicar o advento dos sintomas transitórios ele diz: “O que ocorreu foi, segundo Ferenczi uma simbolização hic e nunc, cujo sentido envolve fantasias inconscientes ativadas pela análise e de um do ou de outro absorvidas pela transferência”.51
Segundo Ferenczi, o surgimento desses sintomas “transitórios" se daria como uma espécie de um último recurso contra certas tomadas de consciência propiciadas pelo trabalho de análise. Quanto mais à análise caminhasse para a elucidação de complexos inconscientes, quanto mais a transferência pudesse atualizar conflitos afetivos até então recalcados, mais se verificaria o surgimento desses sintomas "transitórios” que tinham como característica evitar o advento da palavra “rechaçando a tensão afetiva para a esfera sensorial.”52
O que nos parece fundamental de ser observado é que esses sintomas transitórios apontam para a fina percepção de Ferenczi de que a experiência de transferência é , em última instância , uma experiência capaz de ser criativa. Os sintomas “transitórios” atestam para o potencial da transferência de criar sintomas capazes de se oferecerem como rico material para a intervenção do analista. Para Ferenczi, quando um sintoma “transitório" surgia, era sinal de que a transferência havia tomado as rédeas do processo analítico e de que portanto aquele sintoma ali criado deveria ser uma mensagem endereçada diretamente ao analista, que, com a possibilidade de um ato interpretativo poderia rapidamente reverter o sintoma em construções capazes de funcionarem analiticamente.
Assim, a certeza trazida pelos sintomas “transitórios" é a certeza de que o analista está no caminho certo. Mais que isso, é a certeza de que a análise sendo capaz de criar chances de articulação para a fala do sujeito. Um sintoma “transitório" se faz erguer porque ele é a última tentativa do psiquismo de se defender de algo que não pode ser dito. Tentativa de defesa esse que com certeza fracassará, pois é o sucesso da transferência que está em jogo. Se todo sinto “transitório” é efeito de análise e produzido enquanto mensagem para o analista, isto significa que dependerá do próprio manejo da transferência, fazer com que o que é “transitório” possa dar lugar a algo que tenha efeito interpretativo capaz de trazer introjeções capazes de serem efetivas para o sujeito no sentido de sua cura analítica.

Por fim, vejamos o que conclui o próprio Ferenczi acerca da função os sintomas transitórios: “Das observações de formação de sintomas transitórios aqui agrupadas, proponho-me a extrair a seguinte hipótese: tanto nas grandes neuroses como nessas neuroses em ‘miniatura’, o sintoma só aparece se o psiquismo tiver ameaçado, por uma causa exterior ou interior, pelo perigo do estabelecimento de um vínculo associativo entre os fragmentos dos complexos recalcados e a consciência, ou seja, de uma tomada de consciência que perturbaria o equilíbrio assegurado por um recalcamento anterior.”53


Sándor Ferenczi 


segunda-feira, 9 de novembro de 2015

A introjeção e a aquisição do sentido de realidade Cap.2, Parte 4

A introjeção e a aquisição do sentido de realidade


Em 1913 Ferenczi escreve um importante artigo denominado “O Desenvolvimento do Sentido de Realidade e Seus Estágios”18, destinado a oferecer um modelo teórico capaz de explicitar o processo de formação e aquisição do sentido de realidade para o eu do sujeito. Trata-se de um pensamento que reconhece diferentes estágios de sustentação e percepção da realidade onde o sujeito estabelece diferentes níveis de relação com o mundo externo. Esses estágios, em número de quatro, indicariam fases de desenvolvimento onde a criança passaria paulatinamente por um processo que a capacitaria, no final, a mediatizar com a realidade de maneira que se pudesse distinguir com clareza o que é de domínio de um “eu" e o que pertence ao "mundo externo”. Nosso interesse em trazer à tona esse artigo é o de poder destacar o papel fundamental que adquire a introjeção na aquisição do sentido de realidade.

O primeiro estágio diz respeito à época em que a criança não possuía nenhuma diferenciação para com o mundo externo. Trata-se de um período onde , segundo Ferenczi, apesar da condição de se achar na barriga da mãe, portanto ainda como um feto, o pequeno ser já apresenta algo de psíquico. O psíquico em questão diz respeito a uma fase de pura onipotência onde o feto não precisa nem sequer desejar. Tudo lhe é suprido, tudo lhe é satisfatório e nada lhe falta. Pelo fato de tudo ser resolvido sem qualquer necessidade de interferência do feto, Ferenczi identifica ai a predominância de uma posição de onipotência da criança. “Pois o que é onipotência? É a impressão de se ter tudo o que se quer e de não ter mais nada a deseja"19. Segundo Ferenczi trata-se de fato de uma fase onde predomina a “megalomania da criança” e onde se pode dizer que se vive no “período da onipotência incondicional".

Posteriormente, na condição de recém-nascido, algo começa a faltar. Não se habita mais num meio onde tudo parece pacificado e completo. Ter que respirar e se alimentar fazem com que o bebê passe a sentir minimamente algo relativo à ordem da necessidade. Por mais que os adultos lhe acolham com todo tipo de proteção, o mundo intra-uterino está para sempre perdido e é preciso lutar para ter de volta a paz perdida. Aparece então a oportunidade do surgimento do primeiro desejo da criança que não será outro senão o de retornar para a situação primeira. Esse desejo poderá se realizar, ainda que parcialmente, através da experiência de satisfação alucinatória que servirá, ainda que como recurso meramente psíquico, para saciar o desamparo instaurado. “Não tendo, por certo, nenhuma noção do encadeamento real de causas e efeitos, nem da existência e atividade das pessoas que cuidam dela, a criança é levada a sentir-se na posse de uma força mágica, que é capaz de concretizar todos os seus desejos mediante a simples representação de sua satisfação.”20 Esse período é denominado por Ferenczi de "Período da onipotência alucinatória mágica".

Em seguida, o que se verifica é que essa onipotência alucinatória não será mais suficiente para que o pequeno infans consiga dar conta do excesso de exigências que lhe fazem suas pulsões. A criança passará a lançar mão de um novo recurso: produzir sinais que serão capazes de , minimamente, representar algo do que se espera obter. Alucinar única e exclusivamente já não basta mais. É preciso que se possa lançar mão de gestos, que se assemelharão aos gestos de um mágico e que servirão, através da intervenção de um adulto, para apaziguar o desprazer que até então predominava. Assim escreve Ferenczi: “Os desejos, que assumem formas cada vez mais especificas à proporção do desenvolvimento, exigem sinais especializados correspondentes. Tais são eles, em primeiro lugar: a imitação com a boca dos movimentos de sucção quando o bebê deseja ser alimentado, e as manifestações características, com ajuda da voz e de contrações abdominais quando deseja ser trocado. (...) Resulta daí uma verdadeira linguagem gestual." A esse período, notadamente marcado pela entrada da necessidade do uso de gestos para o inicio de uma troca mais efetiva com o mundo externo, Ferenczi dá o nome de "período da onipotência com a ajuda de gestos mágicos".21

Até aqui todos os três estágios mencionados por Ferenczi têm em comum o fato de se apresentarem como períodos onde, de uma forma ou de outra, predomina a onipotência. Onipotência "incondicional", “alucinatória” ou mesmo de "gestos mágicos”. Aqui, de qualquer forma o que se verifica é que o eu do sujeito ainda não se vê obrigado a distinguir-se do mundo externo. Trata-se, portanto, para Ferenczi de dizer que toda a fase de onipotência esta vinculada à predominância de experiências introjetivas.

O fato de que em seguida, a criança é levada a projetar, isto é, é “obrigada a distinguir do seu ego, como constituindo o mundo externo, certas coisas malignas que resistem à sua vontade, ou seja, a separar os conteúdos psíquicos subjetivos (sentimentos) dos conteúdos objetivos (impressões sensoriais)"22 , não quer dizer que a criança deixe de realizar introjeções. Não, ao contrário, uma vez instaurada, a introjeção se fará impor como um mecanismo capaz de estabelecer o próprio universo simbólico do sujeito ao fazer com que ele invista os objetos do mundo externo a partir de sua própria forma auto-erótica de investimento.

É preciso aqui, mais uma vez, evocar a definição do conceito de introjeção a fim de que se possa ter claro o seu papel na própria constituição linguagem na vida de cada sujeito e, por conseguinte da própria instauração do sentido de realidade. Em 1911, Ferenczi escreve um artigo destinado a elucidar ainda mais o conceito de introjeção. Em “O conceito de introjeção”23 ele chega a reafirmar que “descrevi a introjeção como a extensão ao mundo externo do interesse, auto-erótico na origem, pela introdução dos objetos exteriores na esfera do ego”24 Ou seja, o que se depreende daí é que as trocas que o eu estabelece com o mundo externo, a partir de um determinado momento, têm como característica o fato de obedecerem a uma lógica própria ao modelo de satisfação pulsional vigente até então, a saber, o modelo auto-erótico.

Nessa perspectiva, Ferenczi dirá que o homem só será capaz de amar a si mesmo, ou seja, que o modelo de amor é sempre um modelo auto-erótico onde "amar a outrem equivale a integrar esse outrem no próprio ego”25. O que está em jogo a partir dessa apreensão da introjeção é a formação do próprio universo simbólico do sujeito. Para Ferenczi, por conta do modelo da introjeção, o mundo simbólico e, por conseguinte, a constituição da linguagem é eminentemente, antes de tudo, um mundo auto-simbólico. Vejamos como Ferenczi define baseado em sua concepção de introjeção, o próprio estabelecimento das relações simbólicas:

“Assim se estabelecem essas relações profundas, persistentes a vida inteira entre o corpo humano e o mundo dos objetos, a que chamamos relações simbólicas. Nesse estágio, a criança só vê no mundo reproduções de sua corporalidade e, por outro lado, aprende a figurar por meio de seu corpo toda adversidade do mundo externo. Essa aptidão para a figuração simbólica representa um aperfeiçoamento importante da linguagem gestual; ela permite à criança assinalar não só os desejos que envolvem diretamente seu corpo, mas exprimir também desejos que se relacionam com a modificação do mundo externo, doravante reconhecido como tal”.26

A linguagem gestual é, portanto paulatinamente substituída pela linguagem verbal. Essa última se constituirá a partir do momento em que a criança tiver habilidade para reproduzir sons e ruídos produzidos pelo mundo externo e puder lançar mão das palavras em detrimento dos gestos mágicos. Como Ferenczi sugere, a aquisição da palavra é a mais alta realização do aparelho psíquico concretizando sua completa adaptação junto ao mundo externo e ao sentido de realidade. A criança nesse momento se fará entrar no “período dos pensamentos e palavras mágicas”.

Nos interessará nesse momento, aprofundarmos um pouco mais a relação entre a introjeção e a noção ferencziana de auto-simbólico. Em “Ontogênese dos símbolos"27 Ferenczi apresenta toda a lógica que sustenta seu pensamento acerca do que venha a ser um símbolo. Para ele, para que se tome a noção de símbolo a partir de um sentido psicanalítico, não basta que dois termos possam ser comparados entre si , ou que apresentem relações de semelhanças capazes de interligá-los. Não, para Ferenczi, para que haja símbolo é necessário que uma marca esteja em relação à outra associada por razões que estejam sustentadas em uma lógica proveniente dos afetos de cada sujeito. O símbolo dessa forma implica numa singularidade absoluta onde cada sujeito será capaz de formular seu universo simbólico de acordo com suas experiências afetivas, que , em última instância, como já pudemos acompanhar através da definição do conceito de introjeção, seguirão a lógica do modelo pulsional auto-erótico de amor. “A experiência psicanalítica ensina-nos de fato, que a principal condição para que surja um verdadeiro símbolo não é a natureza intelectual, mas afetiva, embora a intervenção de uma insuficiência intelectual seja igualmente necessária à sua formação”.28

O processo introjetivo é por assim dizer o responsável por toda capacidade singular de simbolização do universo. O sujeito só será capaz de simbolizar aquilo de que é capaz de introjetar. Há, nas palavras de Ferenczi, uma verdadeira “sexualização do universo". A criança será capaz de conhecer os objetos do mundo externo através de experiências que afetivamente, a remetam a si própria. Só se fará símbolo aquilo que puder ser identificado às próprias funções prazerosas reconhecidas na fase auto-erótica. Acompanhemos Ferenczi nesse raciocínio: “Nesse estágio, os menininhos designam naturalmente todo objeto oblongo pela denominação infantil de seu órgão sexual, e veem em toda abertura um ânus ou uma boca, em todo líquido, urina e em todas as substâncias moles, materiais fecais. Um bebê de um ano e meio, quando lhe mostraram pela primeira vez o Danúbio, exclamou: quanto cuspe!”.29

Nessa perspectiva de simbolização através da introjeção, o que se verifica é que o sujeito exerce uma função ativa na constituição do objeto. Aqui, o sujeito não encontra os objetos prontos, mas os fabrica de acordo com sua lógica afetiva. Na verdade, a capacidade auto-simbólica trazida pela introjeção é o que vai fazer com que cada sujeito fabrique seu próprio mundo simbólico e com ele estabeleça suas relações de troca. Ao comentar exatamente a questão do objeto no processo de introjeção , Renato Mezan, no artigo “Do auto-erotismo ao objeto: a simbolização segundo Ferenczi”30, aponta para o fato de que o objeto não é nem encontrado e nem investido exclusivamente , mas, de outra forma, ele é formatado de acordo com o processo introjetivo. Vejamos:
“O curioso aqui é que o objeto não aparece como fonte destas sensações e sentimentos, mas como alvo deles. Poder-se-ia pensar que o objeto é propriamente constituído por cristalizações e polarizações desses afetos sobre um determinado suporte, empiricamente dado. Creio que esta consequência é de fundamental importância, porque faz do objeto um elemento propriamente psíquico, cuja relação com aquilo no qual se incrusta (o suporte) é determinada pelo sujeito segundo uma lógica essencialmente afetiva”.31

Dessa forma, o que se consideraria como objetos seriam na verdade os próprios movimentos afetivos que se valeriam das representações do mundo externo para dar forma e conteúdo ao psiquismo de cada sujeito. Nessa perspectiva, insiste Mezan: “O objeto ferencziano é uma trança ou bloco de afetos, que pulsa e age sobre o psiquismo”. 32

Na mesma direção, temos o pensamento de Teresa Pinheiro, que , em “Ferenczi - do grito à palavra”33, mostra como de fato, a introjeção é por assim dizer, o próprio movimento do psiquismo, capaz de regular todas as suas atividades e de oferecer um modelo coerente para operações que se complexificam tais como o fantasiar, o representar e o identificar. Nessa perspectiva, a autora segue a linha de raciocínio que indica ser a introjeção o mecanismo pelo qual o psiquismo é capaz de produzir sentido. Assim vejamos sua afirmação:

“Ferenczi é incisivo: diz que unicamente através da introjeção é que um sentido torna-se passível de ser apropriado. Dito de outra maneira, é a introjeção que, pela inclusão do objeto, começa a povoar de representações o aparato psíquico. Nesse caso, no entanto, o objeto nada mais é que o suporte daquilo a que visa a introjeção, ou seja, a apropriação das representações das quais o objeto é portador”. 34

Para Teresa Pinheiro a hipótese que dá toda a consistência para se entender a introjeção como mecanismo principal na ordenação do psiquismo é a de que se trata aí exatamente de por em funcionamento o próprio aparato da linguagem. Desde a primeira introjeção, possibilitadora da inscrição do diferencial prazer-desprazer, pode-se falar em ordenamento do aparelho psíquico em termos da instauração do próprio campo da sexualidade. Para autora, nesse sentido, a introjeção têm a característica de ser ela própria uma qualidade da pulsão e se torna a responsável pelo próprio processo de continuísmo do aparelho psíquico, garantindo, para sempre, desde seu advento, a própria noção de subjetividade. Acompanhamos novamente:

“Em Ferenczi, o objetivo da introjeção refere-se, sobretudo à subjetividade; trata-se de trazer para a esfera psíquica os sentimentos do objeto, este funcionando apenas como suporte das representações já investidas que traz consigo. Essas representações carregadas de sentido possibilitam ao aparelho psíquico apropriar-se do que Ihe falta: sentido”.35

Para Maria Torok, no artigo “Maladie du Deuil et Fantasme du Cadavre Exquis”,36 a questão da introjeção não diria respeito propriamente à inclusão do objeto na esfera do eu como se poderia pensar mais comumente. Haveria para, uma certa sofistificação metapsicológica no processo introjetivo que indicaria que o que é introjetado, na realidade é o conjunto das pulsões e de suas vicissitudes, num processo onde se verificaria sempre um enriquecimento do eu através da aquisição do que até então se encontrava na condição de libido inconsciente ou recalcada.

“A introjeção, segundo Ferenczi, reserva ao objeto – e ao analista por conseguinte – um papel de mediador sobre o inconsciente. Operando num vai-e-vem “entre o narcísico e o objetal”, entre o auto e o hetero-erotismo, ela transforma as incitações pulsionais em desejos e fantasmas de desejo e, assim, os torna aptos a receber um nome e um direito de cidadania e a se manifestar no jogo objetal”.37

Ao indicar que a introjeção reserva ao analista o lugar de mediador entre as pulsões e seu próprio desejo – já que a introjeção é quem viabiliza o estabelecimento do circuito pulsão-objeto, ou se quisermos, o circuito pulsão-linguagem, Torok aproxima também, ferenczianamente, nós acreditamos, o conceito de introjeção da própria noção de transferência. Voltamos dessa forma ao inicio de nossas considerações acerca da transferência nos primeiros artigos de Ferenczi e, portanto retomamos a ideia de que o analista deve ser mesmo esse catalisador - ou mediador, como quer a autora francesa -, capaz de garantir o curso de existência e afirmação do desejo inconsciente. Levar o analisando a realizar seu percurso de introjeções, ou seja, permitir com que ele reordene suas coordenadas simbólicas de acordo com a lógica da sua própria existência afetiva, é portanto dar à transferência o lugar de veículo para que se estabeleçam satisfatoriamente as relações entre os dois pólos extremos onde se situam as pulsões numa extremidade e as representações de objeto na outra extremidade.

Sándor Ferenczi


segunda-feira, 2 de novembro de 2015

O Conceito de Introjeção e a Transferência Cap.2, Parte 3


O Conceito de Introjeção e a Transferência

Caminhando ainda mais na tentativa de compreender uma certa metapsicologia da transferência, Ferenczi lança mão da ideia de que toda neurose “é uma fuga diante dos complexos inconscientes"12. Desde Freud, sabemos que a neurose se estabelece como a formação de algo que substitui um conflito que não pode ser levado à cabo pela consciência. Assim, o processo se instaura através de um ato de defesa que procura atenuar as representações incompatíveis com o eu transformando-as de maneira que percam seu poder de excitação. Dessa forma, acompanhamos a formação de quadros sintomáticos histéricos a partir da conversão do afeto em inervação somática e a formação da neurose obsessiva através do estabelecimento de um mecanismo de permanente deslocamentos afetivos que conseguirão parcialmente amenizar a dor psíquica, instaurando um quadro compulsivo sintomático.
O que Ferenczi é levado a afirmar é que mesmo que o sujeito se defenda através de mecanismos como os descritos acima, mesmo assim lhe restará sempre uma quota de afetos que , não alocadas, se mostrará sempre “livremente flutuante” exigindo portanto resposta. "É a essa quantidade de excitação 'residual' que se imputará a disposição dos neuróticos para a transferência; e nas neuroses sem sintoma permanente de conversão é essa libido insatisfeita, em busca de um objeto, que explica o conjunto do quadro patológico"13.
Assim, o próximo passo que Ferenczi dá é o de estabelecer um mecanismo padrão que rege toda a constituição do psiquismo preponderantemente neurótico, que se revelará como um movimento permanente de estabilização desses afetos flutuantes através de um processo que visará alocar o excesso em questão através de sua ligação com os objetos próprios ao mundo externo. Diferentemente do paranóico que projeta para fora de seu eu os afetos que Ihe são pertinentes, "o neurótico procura incluir em sua esfera de interesses uma parte tão grande quanto possível do mundo externo, para fazê-lo objeto de fantasias inconscientes ou conscientes“14. A esse processo de formulação do mundo fantasístico do neurótico, notadamente construído através de sua relação de apreensão dos objetos do mundo externo, Ferenczi dá o nome de "introjeção”.
O conceito de introjeção, como podemos notar, nasce bastante próximo da ideia que Ferenczi tem do próprio mecanismo de transferência. Aqui, quase que como sinônimos, transferência e introjeção acabam por complementarem-se. O excesso afetivo que não deu lugar a um processo de formação sintomática será ele próprio encarregado de chamar para si a ligação das representações do mundo externo. A ideia de introjeção implica em um “botar para dentro" onde o que marca sua característica peculiar é a própria maneira como isso se dá: introjeta-se transferindo o interesse afetivo flutuante (interno) para as representações do mundo externo de maneira a fazer com que elas pertençam ao próprio eu. “O neurótico está em perpétua busca de objetos de identificação, de transferência; isto significa que atrai tudo o que pode para sua esfera de interesses, ' introjeta-os”. 15
Ferenczi mostrará que por conta da instauração de um permanente circuito introjetivo, capaz de estabelecer constantes ligações psíquicas entre o
eu e o mundo externo, o sujeito acabará sofrendo por um excesso de ligações que acabarão por constituí-lo como neurótico. Na paranóia, em contrapartida, o que ocorrerá é a diminuição do eu, onde o sujeito, ao invés de introjetar, projetará, num processo eminentemente defensivo, onde fica claro seu desinteresse e inaptidão para suportar seus próprios afetos. "O 'ego' do neurótico é patologicamente dilatado, ao passo que o paranóico sofre, por assim dizer, uma contração do 'ego”.16
A partir das ideias de introjeção e projeção, mecanismos que podem ser apreciados com mais exagero respectivamente na neurose e na paranóia, Ferenczi trabalha a ideia de uma certa ontogênese do psiquismo baseada na formulação de uma “projeção primitiva” e de uma “introjeção primitiva”. Para tal, imagina-se que o recém-nascido, habitando um mundo monista por excelência, portanto isolado em suas experiências psíquicas de qualquer percepção de uma exterioridade, seria a partir de um determinado momento levado a reconhecer a “malícia das coisas”, isto é, a reconhecer certas representações que não lhe são compatíveis ou suportáveis e que, por conseguinte deverão ser expulsas de sua interioridade. O que se sucederá, segundo Ferenczi, é que o recém-nascido será levado a expulsar de si tais representações incompatíveis realizando então uma espécie de “projeção primitiva”, mecanismo esse responsável por inaugurar um dentro e um fora no aparelho psíquico.
Nem tudo, dirá Ferenczi, no entanto, se deixará expulsar. Nem tudo será expulsado e haverá sempre representações que farão imposição ao sujeito exigindo-lhe resposta. Assim, se o aparelho ruma em constituir-se como algo que deverá responder por uma singularidade, deverá portanto responder à essa exigência interna de maneira que possa utilizar-se das representações do mundo externo a fim de incluí-las em sua esfera de interesses e assim reduzir o desprazer interno. Trata-se aqui, também de um movimento inaugural, capaz de estabelecer um mecanismo que será a própria maneira de funcionar do psiquismo daí por diante: instaura-se portanto, a introjeção, através de uma “introjeção primitiva".
lnstaurada a introjeção, ou seja, instaurada a capacidade do sujeito poder ligar-se ao mundo externo através de um processo que constitui sua singularidade, o que torna-se viável, concomitantemente, é a realização do circuito transferencial. A partir de então, o sujeito aprenderá a amar e a odiar de acordo com seu modelo inicial (auto-erótico) que o levou a introjetar.

“O primeiro amor, o primeiro ódio realizam-se graças à transferência: uma parte das sensações de prazer ou de desprazer, auto eróticas na origem, deslocam-se para os objetos que as suscitaram. No início a criança só gosta da saciedade, porque ela aplaca a fome que a tortura - depois acaba gostando também da mãe, esse objeto que lhe proporciona a saciedade. O primeiro amor objetal, o primeiro ódio objetal constituem, portanto, a raiz, o modelo, de toda transferência posterior, que não é por conseguinte, uma característica da neurose mas a exageração de um processo mental normal.”17


Sándor Ferenczi


segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Transferência como Deslocamento de Afetos Cap.2, Parte 2

Transferência como Deslocamento de Afetos


Ao nos aproximarmos do texto "Transferência e Introjeção" veremos que Ferenczi inicia seus estudos sobre a transferência a partir do estabelecimento do que ele concebe como sendo o mais importante acerca da transferência dentro da obra de Freud. Assim, o que temos é que Ferenczi estabelece como diretrizes fundamentais para se discutir a transferência em psicanálise, duas posições acerca do assunto trabalhadas por Freud ao longo de sua obra. Vale lembrar que estamos em 1909 e que Freud sequer havia escrito seus "Artigos Sobre Técnica.” Nessa perspectiva, Ferenczi dispunha até então para discussão, principalmente, os "Estudos Sobre Histeria", "A Interpretação dos Sonhos”, Psicopatologia da Vida Cotidiana", "O Chiste e Suas Relações com o Inconsciente" e finalmente, "Fragmentos de um Caso de Histeria" (o caso Dora).

As duas posições freudianas acerca da transferência das quais se vale Ferenczi são as seguintes: 1) Uma vez em análise, o neurótico não cessa sua capacidade de produzir sintomas. A análise é capaz de reforçar ainda mais uma especificidade de sintomas (os sintomas de transferência) e por conta disso a transferência fica identificada com a própria constituição de novos sintomas.
 2) A concepção de que as transferências que se produzem em análise são de fato repetições de imagos capazes de reeditarem conflitos entranhados na história libidinal particular de cada sujeito. O que se verifica é a posição que Freud estabelece a partir do caso Dora onde se constata que o analista se presta a substituir, através da presença de sua figura, imagos importantes presentes na história do sujeito.

A partir dessas duas referências ao texto freudiano, Ferenczi parte para começar a tecer considerações capazes de definir o que ele próprio entende por transferência. O primeiro ponto do qual parte é o de afirmar que a transferência constitui-se como mecanismo universal. Isso quer dizer que a transferência não é provocada exclusivamente pela análise ou mesmo que ela seja um acontecimento unicamente próprio aos neuróticos.

"A transferência apresenta-se como um mecanismo psíquico característico da neurose em geral, que se manifesta em todas as circunstâncias da vida e abrange a maior parte das manifestações mórbidas"² . 

Essa definição da transferência como um mecanismo inerente aos movimentos do psiquismo humano e capaz de ser verificado até mesmo nas manifestações mórbidas, mostra que para Ferenczi a discussão da transferência se fará sempre num nível de algo que constitui o próprio psiquismo e que, portanto se verifica em situações que não se reduzem à prática analítica e mesmo a neurose estrito senso. Pensar a transferência como um mecanismo genérico e inerente ao funcionamento do psíquico fez com que Ferenczi, num período mais tardio de sua obra, pudesse se dedicar ao trato de pacientes que não apresentavam como matriz clínica a neurose.
Ferenczi desde cedo postulou a transferência como independente da neurose e pôde se valer disso para o trato do que posteriormente denominou por “pacientes difíceis". Todo o desenvolvimento acerca da transferência e o trato de pacientes que não podiam ser classificados de neuróticos será por nós abordada ao longo dos capítulos três e quatro. Por hora, deixamos indicado o caráter de acontecimento genérico do qual se vale Ferenczi para pensar a transferência. 

Dizer que a transferência é um acontecimento que se verifica até mesmo nos casos mais mórbidos (donde se conclui que se trata de ir além da neurose), não impede a Ferenczi de, junto com Freud, perceber que, na neurose, a transferência mostra-se presente de maneira mais exagerada. Trata-se assim de se postular que os neuróticos sofrem por desperdício. Um desperdício que Ferenczi classificará de desnecessário. Para que se possa entender isso, ele nos convida a pensar naqueles sujeitos que costumam apaixonar-se com frequência e também nos que podem odiar com uma considerável suscetibilidade. A explicação para essa excessiva disponibilidade para investir objetos libidinalmente encontra-se na ideia de que, nessas situações, são transferências que ocorrem, de maneira que, ao operarem, realizam um movimento de "deslocamento da energia afetiva dos complexos de representações inconscientes para as ideias atuais, exagerando sua intensidade afetiva”.³ 

Aqui a ideia trabalhada por Ferenczi é a de que a transferência, em última instância, é o resultado do próprio movimento inconsciente, que, ao tentar realizar-se através da obtenção de representação na consciência, opera o deslocamento de seus afetos de forma a atingir seus objetivos. Dessa forma, transferir é transportar afetos de um determinado grupo de representações inconscientes para um grupo de representações que seja aceito pela consciência. Essa ideia, que será tomada por Ferenczi como a ideia principal acerca do que seja a transferência, já foi por nós trabalhada nessa dissertação através de um subtítulo apresentado no capítulo 1 que indica a transferência "como veículo do desejo inconsciente". Portanto, o que podemos afirmar é que a ideia de que a transferência opera por deslocamento de afetos pertence ao próprio Freud que assim a definiu em um determinado momento de sua obra.
Ao tentar esclarecer um possível mal-entendido entre a utilização do conceito de transferência como identificado ao de deslocamento, Ferenczi lança mão da explicação de que a transferência está contida na concepção mais ampla de deslocamento. Na verdade a única maneira de diferenciá-los com mais precisão é postular que a transferência é um deslocamento que se vale da utilização da própria figura do analista corno referência para o deslocamento. Acompanhemos a tentativa de Ferenczi de diferenciar deslocamento e transferência:

"A transferência é apenas um caso particular da tendência geral dos neuróticos para o deslocamento. Para escapar de certos complexos penosos, portanto recalcados, são impelidos, pelas explicações causais e analogias mais superficiais, a testemunhar sentimentos exagerados (amor, repulsa, atração, ódio) por pessoas e coisas do mundo externo"

Pode-se notar que para Ferenczi, ao situar a transferência como um processo destinado à levar o sujeito a escapar de processos penosos, está-se falando menos de defesa do que de movimento próprio ao sistema inconsciente. É que para ele, a transferência é a maneira da qual o sujeito se vale para poder dar destino à gama de afetos que o acomete. Esses afetos, bem entendido, devem ser concebidos como energia própria ao inconsciente que exigem um destino por parte do sujeito. Esse destino dos afetos, como podemos acompanhar Ferenczi descrever, pertence e depende exclusivamente da capacidade que o sujeito tem para realizar transferências. 

"Se os neuróticos pululam nos movimentos de tendência humanitária ou reformista, entre os propagadores da abstinência (vegetarianos, antialcoólicos, abolicionistas), nas organizações e seitas religiosas, nas conspirações pró ou contra a ordem política, religiosa ou moral, isso se explica pelo deslocamento, nos neuróticos, das tendências egoístas (agressivas e eróticas), recalcadas, censuradas, do inconsciente para um plano onde elas podem ser vividas sem culpa.”

Para enfatizar seu argumento e estabelecer a transferência como um caso particular de deslocamento, onde o que vai interessar, como já dissemos, é o lugar "tomado de empréstimo" pela representação do analista, Ferenczi dirá que "as condições de tratamento psicanalítico são muito propícias ao estabelecimento de tal transferência” porque os afetos recalcados que, através do movimento desejante inconsciente, são levados a se deslocarem em busca de novas representações para investimento, encontrarão com facilidade a representação do analista que se disporá de imediato para acolher os afetos carentes de ancoragem. Essa imagem, que faz do analista um catalisador de afetos, isto é, uma espécie de polo acolhedor para a intensidade desejante de cada sujeito identificará a transferência como um acontecimento capaz de ordenar o curso e vicissitudes que uma análise pode tomar.

Vejamos como Ferenczi introduz, ele próprio, a ideia de que o analista funciona como um catalisador de afetos: “A pessoa do médico atua aí como um catalisador que atrai provisoriamente os afetos liberados pela decomposição; mas cumpre saber que numa análise corretamente conduzida essa combinação mantém-se instável, e uma análise bem administrada deve encaminhar rapidamente o interesse do paciente para as fontes primitivas escondidas, criando uma combinação estável com os complexos até então inconscientes". Portanto a ideia do lugar do analista como catalisador é bem pertinente à concepção da transferência como deslocamento de afetos. A tendência natural de cada sujeito, podemos afirmar com Ferenczi, é a de se deslocar o tempo inteiro. Na verdade, o que Ferenczi faz é levar à sério a postulação freudiana que compreende o sistema inconsciente como o lugar próprio ao movimento desejante e que portanto opera através dos mecanismos de condensação e deslocamento. Conceber o analista como catalisador é dar a chance de se instituir, através da análise, o circuito do desejo do sujeito de maneira que ele possa ter suas ligações libidinais satisfatoriamente alocadas.

A ideia do catalisador, tal como Ferenczi a concebe, faz da representação do analista um polo passageiro, ou se preferirmos, transitório, capaz de atrair para em breve despachar os movimentos afetivos em questão.
 Assim, a transferência não pode ser concebida nem como uma "falsa ligação" ou mesmo como uma resistência. Isto porque a participação da figura do analista é algo previamente esperado na medida em que o sujeito, a partir de seu processo desejante, é capaz de desejar uma representação que se lhe ofereça como possível de ser investida. Para Ferenczi, a transferência desde sempre foi esperada e concebida como algo pertinente à capacidade do sujeito investir seus afetos. A transferência não é resistência simplesmente porque o analista é esperado na cadeia desejante assim como outrora as imagos paternas já o foram. Com o analista como catalisador, não há propriamente uma substituição de imagos passadas, mas a afirmação do desejo inconsciente que escolhe o analista para se presentificar.

Assim, a transferência pode autenticar o lugar do analista com a aparição deste no sonho de um sujeito em análise. Ferenczi foi o primeiro a mostrar que o analista, ao se prestar como resto diurno, não faz nada mais a não ser permitir com que o sujeito ponha em ação seu modelo desejante. Para Ferenczi, o analista como resto diurno, apenas comprova a magnitude e soberania da transferência e com isso possibilita que um sonho seja aproveitável em uma análise. Assim, o analista provavelmente não diria, não sou eu, mas seu pai...", para diferentemente sugerir que "Sim, sou eu, mas também pode ser seu pai, ou alguém diferente...", numa franca afirmação do movimento afetivo que passa a ser positivado como um acontecimento verdadeiro e até mesmo necessário.  Ao afirmar que "O médico é sempre e exclusivamente um desses 'expectros' que fazem ressuscitar no paciente as figuras de sua infância", Ferenczi não faz outra coisa senão testemunhar que o analista serve à cadeia desejante da mesma forma que outras representações outrora já o serviram. Assim para Ferenczi, desde sempre, a experiência analítica encontrou mais sua função na afirmação da vida afetiva do sujeito do que na tentativa desenfreada de se restabelecer a verdade dos investimentos inconscientes. Para Ferenczi, dessa forma, interessa menos o trabalho de vencer resistências, pois não há nada a ser vencido - do que o de estabelecer níveis de vivências afetivas.

Por isso ele cedo pôde afirmar, não sem uma considerável coerência, que “reconhecer a transferência das emoções positivas e negativas é capital na análise.” Nessa perspectiva, o importante é que o sujeito experiencie sua vivencias afetivas, sejam odiosas ou amorosas, da forma mais intensa possível. A transferência se presta assim a funcionar como o testemunho último do que o sujeito deseja e de que seus afetos estão sempre ali presentes, urgindo por novas maneiras de apresentação. Uma leitura cautelosa nos aproximará de um Ferenczi extremamente cuidadoso e à vontade com a teoria freudiana do inconsciente. Pois para ele a transferência põe em curso a própria linguagem do inconsciente na medida em que é próprio desse "deslocamento de afetos", operar de acordo com as regras estabelecidas por Freud em "O Chiste e Sua Relação Com o inconsciente". Trata-se de afirmar que a transferência opera tal qual o inconsciente, que ela se desloca e se institui por sua ligação representacional orientada pela semelhança entre detalhes. São “minúsculos detalhes" capazes de serem captados pelo trabalho do sonho e oferecidos como material próprio para a realização de desejo. Em franca referência à figura de estilo tão difundida posteriormente no meio psicanalítico - a metonímia, Ferenczi faz uso do modelo poético que afirma "a parte pelo todo" para mostrar por onde se sustenta a força e coerência da imposição da transferência. Ele escreve:

"O 'ridículo' aparente de uma transferência estabelecida com base em semelhanças tão ínfimas lembra-me que Freud assinalou como fator deflagrador do prazer numa certa categoria do chiste 'a representação pelo detalhe' (darstellung durch ein kleinstes), ou seja, pelo elemento próprio para sustentar a transferência dos afetos inconscientes".


Sándor Ferenczi



sexta-feira, 16 de outubro de 2015

INTRODUÇÃO À OBRA DE FREUD


CASO CLÍNICO “O HOMEM DOS RATOS” 


 Neste curso será apresentado o problema da neurose obsessiva através do famoso caso clínico de Freud chamado “O Homem dos Ratos”. Serão  abordados os seguintes tópicos: 

1) Modalidades de defesa na Neurose Obsessiva; 2) Destinos de afeto e representações na Neurose Obsessiva; 3) Amor e ódio ao Pai; 4) Formação Reativa; 5) Aspectos de Carácter e Sintomas relativos às fixações da fase anal; 6) Sintomas clássicos da Neurose Obsessiva; 7) Relação entre compulsão e obsessão; 8) Superação de sintomas via trabalho analítico; 9) Neurose Obsessiva em tempos atuais.
09 às 12h



segunda-feira, 12 de outubro de 2015

A TRANSFERÊNCIA NOS PRIMEIROS ESCRITOS DE FERENCZI Cap.2, Parte I

2.1 Ferenczi : Freudiano e Criativo

Em 1909 Ferenczi escreve o artigo “Transferência e lntrojeção”¹ . Esse  é o primeiro artigo psicanalítico de peso escrito por ele e se constitui como um marco inaugural estabelecendo Ferenczi como um colaborador efetivo na construção e edificação da teoria psicanalítica. Por essa ocasião Freud já não mais se encontrava em seu isolamento intelectual e a psicanálise começava a ganhar reconhecimento e respeito tanto na Europa quanto na América do Norte. Assim, o artigo em questão ganhava sua força e entendimento a partir da necessidade que tinham os primeiros analistas junto a Freud de disseminar e elucidar a teoria psicanalítica tanto para aqueles que dela se aproximavam, exercendo-a, quanto para a, opinião intelectual de uma maneira mais generalizada.

Trata de conceitos psicanalíticos, elucida-los a diferenciar a prática analítica das demais práticas psicoterápicas parecia ser a palavra de ordem entre os primeiros autores freudianos. O artigo em questão se apresenta, à princípio, exatamente como uma espécie de elucidador do conceito de transferência, buscando sempre se constituir  numa fiel leitura ao próprio ensinamento freudiano. Veremos mais adiante que Ferenczi é essencialmente freudiano nesse momento e que muito de seu interesse é operacionalizar as ideias já trabalhadas por Freud até então. Contudo, é preciso afirmar, o artigo em questão, apesar de se constituir como uma leitura fiel a uma certa concepção do conceito de transferência em Freud, não se restringe a realizar apenas uma tarefa de catequese dos escritos freudianos. Ferenczi já aponta nesse artigo para a perspectiva de uma leitura da transferência que, sem deixar de ser freudiana, se constitui com uma peculiaridade capaz de orientar a própria prática analítica em uma direção completamente singular. Ao realizar um estudo sobre o conceito de transferência, Ferenczi faz escolhas e recortes na positivação do conceito que são por si só capazes de apontá-lo como um pensador criativo da própria teoria psicanalítica.  Assim, muito do que foi desenvolvido em sua obra , no que tange ao problema da transferência, ganhou lógica e coerência a partir do entendimento desse primeiro artigo.

     Como consequência dessa característica, a saber, a de se constituir  desde sempre como um autor psicanalítico capaz de pensar criticamente a  própria teoria que ajudava a constituir, pode-se destacar aqui o surgimento do próprio conceito  de introjeção que origina-se a partir de uma reflexão  absolutamente singular de Ferenczi acerca da constituição e dinâmica do próprio psiquismo. O conceito de introjeção é uma contribuição original de  Ferenczi à teoria psicanalítica de extrema importância, capaz de orientar todo o pensamento que se faz conduzir na constituição da obra ferencziana. Na verdade, esse conceito, de pronto aceito e utilizado por Freud, tornou-se uma referência obrigatória na obra de importantes autores psicanalíticos e ganhou novas dimensões que, com toda a certeza pode-se afirmar, o distanciaram da proposta inicial de Ferenczi. Retoma-lo aqui, indicando sua especificidade dentro do pensamento ferencziano, constitui uma de nossas tarefas.




Sándor Ferenczi e Sigmund Freud 


domingo, 4 de outubro de 2015

Transferência e sugestão Cap.1, Parte VIII

Transferência e sugestão

Quando em 1904,  escreve o artigo “Sobre a Psicoterapia” 62, destinado a elucidar o valor e o modo de funcionamento da terapia analítica,  Freud aponta para o fato de que já havia abandonado a prática da sugestão hipnótica há pelo menos oito anos.  Sabemos que no início, durante muito tempo , Freud valeu-se do método da sugestão direta e posteriormente da sugestão hipnótica bem como do método catártico de Breuer para realizar o tratamento de pacientes histéricos mas que abandonou todos esses métodos para criar o método analítico propriamente dito.  A psicanálise de Freud , passava , através do método de investigação das associações livres, da análise das resistências e da interpretação dos derivados do inconsciente, a se constituir enquanto uma terapêutica que não se utilizava mais do método sugestivo como meio de ação contra os sintomas neuróticos.
            No artigo em questão , Freud é bem claro ao afirmar o distanciamento entre a prática sugestiva e a psicanálise:  “Há na realidade, a maior antítese possível entre técnica sugestiva e analítica - a mesma antítese que, com relação às belas artes, o grande Leonardo da Vinci resumiu nas fórmulas: per via de porre  e per via de levare”63.  Aqui, a comparação feita por da Vinci  é entre o ato da pintura , onde o pintor põe tinta na tela , portanto preenchendo  algo que estava vazio, e o ato da escultura onde o escultor retira da pedra todo o excesso bruto que esconde as formas a serem obtidas pela escultura .  Ora, para Freud, trata-se do mesmo quando se compara sugestão e psicanálise.  A sugestão, na medida em que opera acrescentando idéias, sugerindo situações, atua pela via de porre, ao passo que a análise “não procura acrescentar nem introduzir nada de novo, mas a retirar algo, a fazer aflorar alguma coisa , sendo que para esse fim se preocupa com a gênese dos sintomas mórbidos e o contexto psíquico da idéia patogênica que procura remover”64.
            O que se pode compreender a partir dessa posição é que a psicanálise seria um método que não contaria com a sugestão , mas unicamente com a investigação dos sintomas através do trabalho de reconhecimento das resistências em questão.  Podemos mesmo afirmar que para Freud, a necessidade de afirmação e estabelecimento da prática analítica quando de seu surgimento o levaram a tomar posições radicais quando se tratava de comparar sugestão e psicanálise.  O distanciamento parecia ser da ordem de uma oposição onde Freud chegava a propor, de um lado a psicanálise com seu método específico e de outro, todas as outras terapias que não faziam outra coisa senão trabalhar via sugestão.
            No entanto , anos mais tarde, quando escreve a conferência ”Terapia Analítica”65 Freud tem a oportunidade de estabelecer um estudo mais detalhado acerca da sugestão e do método analítico e o que se verifica é que, apesar de manter a distinção existente entre ambos os métodos, ele é levado a admitir o papel que exerce a sugestão dentro do método analítico.  Dessa forma, Freud não aproxima os dois métodos mas é levado a  reconhecer a maneira pela qual a sugestão se apresenta na economia do processo analítico.  Eis o ponto que nos interessa: saber qual a função da sugestão dentro do campo da terapia analítica e por conseguinte, verificar como interagem sugestão e transferência. O texto “terapia analítica” nos servirá de referência para realizarmos nossa reflexão.
            “A sugestão direta é a sugestão dirigida contra a manifestação dos sintomas; é uma luta entre nossa autoridade  e os motivos da doença”66.  Freud foi ele próprio um conhecedor dos efeitos de um trabalho orientado sob a égide da sugestão.  Discípulo de Bernheim, que afirmava ser a sugestão o verdadeiro motor de cura no processo de hipnose, Freud passou por várias fases em suas investigações ligadas à sugestão.  Trabalhou com sugestão proibitória, com o próprio método de Breuer e por isso se vê possibilitado a criticar tais métodos: a sugestão proíbe os sintomas de existirem mas não é ”capaz de apreender nada de seu sentido e significado”67.
            Para Freud a sugestão nunca pareceu ser um método confiável.  Nem todos os pacientes eram sugestionáveis, tampouco nem todos ficavam efetivamente curados.  Algumas situações embaraçosas fizeram Freud se aperceber de que o efeito promovido pelo método sugestivo residia muito mais na relação de autoridade que se estabelecia entre médico e paciente do que em qualquer outro motivo. Há o relato de um caso onde a paciente ,após ter sido curada, apresentara recaídas tão somente porque suas relações com Freud haviam sido perturbadas.  “Passado isso, querendo ou não , dificilmente se poderia evitar investigar a questão referente à natureza e à origem da autoridade que se tinha no tratamento sugestivo”68.(525)
            Pensar que o problema da autoridade sustenta a cura sugestiva é também pensar que é devido à motivação trazida pela relação médico-paciente que se pode falar em cura.  Dessa forma o que anuncia Freud é que “a sugestão pode ter sua origem na transferência”69, tendo cabido à psicanálise, já que ela traz um discurso sobre a transferência, a oportunidade de manejar de uma forma totalmente distinta , a dimensão sugestiva presente no processo terapêutico.
            Nessa perspectiva, afirma Freud que  “o tratamento hipnótico procura encobrir e dissimular algo existente na vida mental; o tratamento analítico visa a expor e eliminar algo.  O primeiro age como cosmético, o segundo como cirurgia”70.  O tratamento hipnótico, baseado na pura aplicabilidade sugestiva, opera proibindo sintomas, fortalecendo o recalque mas sem no entanto modificar nada pertinente à formação dos sintomas. A psicanálise, simetricamente, se interessará pelos sintomas e tentará trazer à tona a origem infantil dos conflitos, utilizando-se da sugestão  de maneira secundária, com o propósito de intervir quando da discussão e elaboração dos conflitos psíquicos trazidos à tona pela transferência.  Eis portanto a afirmação de que a sugestão opera no tratamento analítico mas de maneira a ser apenas um coadjuvante, uma espécie de auxiliar que age até mesmo à revelia do analista.  Pensar a sugestão nessas condições é dizer que ela é presente na relação analítica justamente por se fazer parte constituinte da própria transferência.
            A sugestão é um componente da transferência, podemos dizer.  Ela está presente na medida em que , aquele que está em transferência, ou seja , aquele que experiência uma relação  que envolve investimentos libidinais, repetição de imagos, situações amorosas com um analista, está sujeito a ser mobilizado, de maneira a se tornar sugestionável, por todas essas nuanças que constituem a relação analítica.  O que vai importar é de como o analista se valerá do componente sugestivo para manejar a própria transferência.  Freud responde: “Na psicanálise, agimos sobre a própria transferência, deslindamos o que nela se opõe ao tratamento, ajustamos o instrumento com o qual desejamos causar nosso impacto. Assim, se nos torna possível auferir uma vantagem inteiramente nova do poder da sugestão; ela passa para nossas mãos”71.
            O analista deve manejar a transferência e por conseguinte, deve ter o controle da aplicabilidade da sugestão.  A psicanálise tem que se haver com os efeitos da transferência e se valer dela para ter acesso ao material inconsciente.  Dessa feita, não se sugestiona o paciente a fim de que ele não tenha tal sintoma, mas se investiga analiticamente tal sintoma até que ele se desvende através do preenchimento das lacunas presentes no discurso do paciente.  A transferência, com sua dimensão sugestiva é o que dará condição para que o trabalho de investigação dos sintomas se realize e ao mesmo tempo é o que fará com que o paciente adquira o sentimento de convicção acerca do material elaborado.  Assim, dirá Freud, “É essa última característica [o manejo da transferência] que constitui a diferença fundamental entre terapia analítica e terapia meramente sugestiva, e que livra os resultados da análise da suspeita de serem sucessos devido à sugestão”72.
            O argumento forte trazido por Freud é o de que, por oposição à psicanálise, os outros tratamentos terapêuticos deixam intocadas as relações ligadas à transferência, esta ficando assim  inalterada e ignorada ao longo de todo tratamento.  Ao contrário, a psicanálise se interessa pela transferência e suas nuanças, devendo analisá-la por completo, esgotando suas possibilidades de maneira que “se o sucesso então é obtido ou continua, ele não repousa na sugestão, mas sim no fato de , mediante a sugestão, haver-se conseguido superar as resistências internas e de haver-se efetuado uma modificação interna no paciente”73. (529)

            Em psicanálise, a sugestão é portanto encarada como um recurso inerente à transferência , cabendo ao analista utilizá-lo de maneira que possa atingir seus objetivos.  A sugestão talvez seja a “faceta” da transferência que mais decida sobre o fator de verdade trazido pelas investigações inerentes ao tratamento analítico.  Pode-se dizer que é ela quem legitima, em última instância, a eficácia de todo efeito interpretativo advindo da análise.  Mas, de qualquer forma, o que se apreende é que, em psicanálise, a  idéia de sugestão só faz sentido se estiver articulada com os conceitos psicanalíticos que decidem sobre a própria articulação da prática analítica, dentre os quais, a transferência se inclui na condição de ser um conceito fundamental74.


SIGMUND FREUD